terça-feira, 12 de outubro de 2010

Apagando a má impressão


Com um repertório muito maior e tocando para a plateia certa (não fãs acéfalos de Iron Maiden ou gente arroz-de-festa pouco interessada em música como no RIR 3), o Queens of the Stone Age matou a pau no SWU ontem, acabando com a imagem negativa deixada nessas terras por sua malfadada apresentação carioca em 2001. Mesmo como o atraso e pequena diminuição na duração, a banda mandou porrada, evitando músicas mais lentas e dando preferência ao esporro stoner que a caracteriza. Após abrirem com o clássico mantra Feelgood Hit of the Summer e imediatamente ficarem com o público na mão, não faltou fôlego para petardos como The Lost Art of Keeping a Secret, Burn the Witch, Little Sister, No One Knows, In my Head, Go with the Flow, a surpreendente I Think I Lost my Headache, entre muitas outras, até o fechamento apoteótico como A Song for the Dead. Pode-se argumentar que o show foi curto, que não foram tocadas músicas do primeiro álbum, que poderia ter rolado alguma coisa do Kyuss, que a comunicação com o público poderia ser maior, mas a entrega, entrosamento e competência técnica da banda compensaram qualquer coisa. Grande show de rock'n'roll, daqueles inesquecíveis!

domingo, 26 de setembro de 2010

O preço

"A pornografia é o preço que tem que ser pago pela liberdade de imprensa."
Milos Forman, cineasta, no lançamento do excelente O Povo Contra Larry Flint

Expando o raciocínio quando vejo patrulhas ao direito de se candidatar a uma cadeira no Legislativo do "palhaço" (perdoem-me, Arrelia, Bozo etc etc) Tiririca. A possibilidade de existência de um candidato semiletrado, praticamente acéfalo e sem qualquer ideia, discurso ou plataforma organizados não é um problema em si própria, muito pelo contrário. Uma candidatura dessas é prova inconteste da plenitude da democracia, da perspectiva de que qualquer cidadão possa ter o desejo de representar a sociedade. O equívoco filosófico nessa questão é a existência de um partido que se permita (e provavelmente estimule) agregar imagem tão negativa, energúmena e contraproducente à sua legenda. Agora, o fato de que existam membros da própria sociedade dispostos a depositar seu voto de confiança em tamanho embuste é o verdadeiro sintoma dessa doença adquirida em decorrência das liberdades democráticas. Alijar um cidadão de suas prerrogativas democráticas devido a seu sofrível nível educacional/cultural é inaceitável. Assim como é inaceitável que partidos se valham de tais expedientes vis e usufruam da existência de eleitores dispostos a jogar seus votos na urna como se esta fosse uma latrina das menos higienizadas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma decepção nua e crua


O início de Juliet Nua e Crua (Juliet Naked), último romance de Nick Hornby, é tão espetacularmente perfeito que faz que pensemos estar diante da melhor obra do autor. A descrição impiedosa de um nerd do universo musical, sua companheira e a desconstrução em paralelo de seu ídolo aposentado (ou caído?) são tão dolorosamente reais e indisfarçáveis que chegam a doer (especialmente se o leito for também um nerd do universo musical). A forma como Hornby aborda a multiplicidade de impressões e sensações a que determinado produto cultural leva em diferentes interlocutores, assim como o processo de iconização de indivíduos normais superexpostos, chega a ser cruel tamanha a sua rispidez. O parasitismo emocional imposto sobre um artefato artístico como forma de sublimar a própria infâmia de uma existência medíocre, fútil e miserável é delineado com prazer sádico por Hornby, curiosamente um autor de cabeceira de todos os parasitas embotados do mundo real.

Tudo muito bom... Não fosse a segunda metade do livro. Uma série de acontecimentos improváveis, coincidências mais do que fortuitas e eventos folhetinescos que obscurecem muito da verossimilhança trágica de sua primeira centena de páginas. Talvez um bloqueio artístico auto-imposto inconscientemente por um autor que cometeu a impostura de trazer à luz o autismo de parte considerável de seu próprio público.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Os Shins mudariam sua vida?



Nessa cena do hoje cult Garden State (2004), Sam , interpretada por Natalie Portman, apresenta a canção New Slang, dos Shins, a Large (Zach Braff). O contraste entre a empolgada apresentação e a fria recepção tornam a cena tocante, provavelmente por que todos já devemos ter passado por isto. Essa percepção individual do mesmo artefato artístico ilustra arrasadoramente o caráter transcendente, único da experiência de ouvir música. Uma forma de expressão artística tão abstrata quanto enganosa... quanto redentora.



P.S.: na vida real, os gostos de Natalie Portman são aterradoramente diferentes, visto que ela já namorou o freak folkster Devendra Banhart...

domingo, 19 de setembro de 2010

LCD Soundsystem se garante em novo trabalho


James Murphy nunca decepciona. Foi um dos caras que definiu o som dos 00s com suas produções com o time da DFA Records, compôs e gravou Losing my Edge, música-símbolo do então chamado "novo rock" e tem em seu currículo Sound of Silver (2007), um dos melhores álbuns da década.

E agora volta à carga com This is Happening. Não roça a quase genialidade pós-pós-moderna de seus dois álbuns anteriores, não tem nada tão perfeito quanto All My Friends ou pegajoso como Daft Punk is Playing at my House, mas ainda assim é um excelente trabalho. Sem tanta pretensão, Murphy cozinha seu arroz com feijão de sempre, costurando referências new wave (Drunk Girls), electro (Pow Pow), tecnopop (One Touch) e pós-punk (All I Want), entre outras trocentas influências, com maestria.

Poucos se lembram de Rapture ou Radio 4, mas do LCD Soundsystem sempre se pode esperar coisa boa.

Disco do ano?

The Suburbs, último álbum do Arcade Fire, teve uma recepção calorosa por parte da crítica, sendo comparado a grandes discos recentes da música pop, especialmente Ok Computer, do Radiohead.

A comparação procede? Creio que não. Mas pode ser facilmente comparado a The Bends.

Ao fincar os pés no chão e tratar de assuntos mais prosaicos e palpáveis do que em seus trabalhos anteriores, Funeral e Neon Bible, o Arcade Fire deu uma bela guinada. O binômio drama/angústia continua forte, assim como o fundo teatral da coisa toda, porém de forma mais contida, em compasso com o abrandamento dos temas abordados. Saem as inquietações sobre morte, fé e existência, entram reminiscências e conflitos mal resolvidos de infância e adolescência. Os arranjos, mais econômicos que de costume, tem mais relação com new wave e pós-punk mundanos do que com a grandiloquência glam/prog de outrora.

Disco do ano? Muito bom trabalho, mas fico ainda com Plastic Beach, do Gorillaz.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Viajando a passos realmente gigantes

Os Boo Radleys são hoje uma distante lembrança da fase de transição da música pop britânica entre o pós-punk choroso dos Smiths e o britpop de arena capitaneado pelo Oasis. Ou seja, fazem parte do grupo de bandas chamadas, de forma outrora pejorativa, hoje definidora, de "shoegazers", ou "olhadores de sapatos", assim chamados pela escassa presença de palco característica de praticamente todos os grupos do período. Vocais etéreos, guitarras fluidas e eletronicamente processadas, algumas tentativas de tornar o som um tanto dançante.

Os Boo Radleys não fugiam a essa fórmula, mas demonstravam personalidade e uma certa necessidade de alargar os horizontes notável desde o início. Pois em Giant Steps, seu terceiro trabalho, eles atingiram o nirvana do shoegazing.

Martin Carr, guitarrista e líder da banda, nunca escondeu sua afeição pelo jazz. Mas nesse álbum, tudo fica ainda mais explícito, a começar por seu título. Aglutinando todas as referências disponíveis de música popular com intenções lisérgicas, Giant Steps (1993) consegue harmonizar psicodelia, prog, dub, free jazz, Beatles, Beach Boys e quase todo o bom pop de todos os tempos de forma assustadoramente perfeita e transcendental. Agora, era possível olhar os sapatos em alto estilo.

Citar músicas individualmente é um exercício fútil; vale a pena ouvir o álbum todo na íntegra, com suas canções fluindo e se transformando na faixa seguinte espontaneamente.

Um grande trabalho de uma banda inspirada, no auge de seu jogo, que nunca mais atingiria tal patamar.

Pequenos tabletes:
Rodney King (Song for Lenny Bruce)
Butterfly McQueen
I Hang Suspended
Lazarus
Barney (...and me)
Best Lose the Fear
I Wish I Was Skinny

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nuvens no sete de setembro


Independência: estado de quem ou do que tem liberdade ou autonomia.


Após longa e preocupante estiagem, nuvens e chuva fina no sete de setembro. Nas comemorações do dia em que nos tornamos "independentes" e deixamos de ser governados pelo então monarca de Portugal e passamos a ser dirigidos pelo... futuro monarca de Portugal.


O acaso do clima, em sua plácida indiferença para conosco, nos traria um involuntário presságio?


“Na primeira noite eles se aproximam sorrateiramente e colhem uma flor de nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Vladimir Mayakovsky

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Pinceladas

Algumas músicas aleatórias que têm rolado exaustivamente por aqui...


The Make-Up - Live in the Rhythm Hive (1998)
Diretamente do álbum In Mass Mind, essa belezinha sintetiza o conceito de rock de garagem do Make-Up: vocais cuspidos, um riff de guitarra espasmódico a serviço de um groove sujo, tudo secundado por uma linha de baixo incrivelmente dançante. Sensacional, diga-se.



A grande banda esquecida do power pop homenageia Gene Clark, o grande compositor esquecido do country/folk rock. Vocais sôfregos emoldurados por um delicado instrumental acústico compõem essa dolorosa canção sobre perda, desamparo e falta de esperança.


Uma atípica canção soul movida a violões, bateria sequenciada e vocais em falsete, encontrada no único álbum de ChesnuTT (The Headphone Masterpiece). Uma melodia doce e agradável e um início aparentemente ingênuo não preparam o ouvinte incauto para a lascívia deliciosamente adolescente do refrão.



A canção que abre o clássico Eli and the Thirteenth Confession é um belo exemplo de pop complexo sem perder a acessibilidade. Mudanças de andamento, malabarismos vocais, um letra críptica com imagens muito fortes, tudo isso compactado em pouco mais de 3 minutos. Popular demais para fãs de Joni Mitchell, muito complicada para admiradores de Carole King. Coisa fina.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um obra-prima artesanal e oculta de música negra


Tortuosos são os caminhos da música pop. Talento ou qualidade não são suficientes para catapultar ninguém ao estrelato, mas apenas marketing pessoal, aparato monstruoso de promoção e exposição tampouco são garantias de sucesso. Quando faz-se uma opção por trabalhar da forma mais low profile possível então, as chances de despontar para o anonimato são ainda maiores.

Provavelmente, poucos se lembram de Cody ChesnuTT. A referência mais simples é a música "The Seed 2.0", de sua autoria, que virou clipe de rotação relativamente alta na versão do coletivo hip-hop The Roots em 2003, com participação do próprio ChesnuTT inclusive. Pouca coisa ainda assim, não?

Pois após ouvir seu único álbum completo, The Headphone Masterpiece, estou desnorteado. Trata-se de um disco duplo lançado em 2002, com 36 faixas gravadas de forma artesanal, literalmente caseira. ChesnuTT toca todos os instrumentos, programações e canta tudo no álbum. O resultado é embasbacante. Com cara de colcha de retalhos, há fragmentos de soul clássico, guitarras de classic rock, melodias de soft rock e pop setentista, uma vibe largadona meio jamaicana, vocais em falsete que orgulhariam Curtis Mayfield e causariam desconforto num certo baixinho de Minneapolis. E tanto ecletismo, que poderia render uma mistura indigesta ou um som burocrático na linha dos piores momentos de Ben Harper, funciona bem por aqui. As composições são tão boas que dispensam uma produção mais esmerada. E o esquema caseiro contribui para o clima relaxado tão apropriado para algo gravado nessas condições. ChesnuTT descompromissadamente flerta com vários estilos e dá à luz preciosidades como as acústicas Enough of Nothing, She's Still Here e Daddy's Baby, os baladões soul The Make Up, Eric Burdon e 6 Seconds, os rocks básicos The Seed, Upstarts in a Blowout e If We Don't Disagree. Eis aí uma das grandes virtudes de um trabalho tão longo: a imprevisibilidade impera a cada faixa, de repente salta-se de uma paisagem folk bucólica para um racha-assoalho eletrônico, num trabalho aparentemente pouco planejado. Acostumados que estamos a intérpretes comportados como John Legend, alguém como Cody ChesnuTT quebra com vigor as convenções a que a black music mainstream encontra-se confinada nos dias de hoje. Fosse Beck autenticamente negro e espontaneamente ousado e talvez fosse assim que ele soasse. Um verdadeiro tesouro que cresce a cada audição e que não só merece, como tem que sair da obscuridade.