sábado, 31 de março de 2007

Descobertas tardias nº 2 - Camper Van Beethoven


Desde a metade dos anos 90, conhecia a banda Cracker, uma daquelas que apareceu na ressaca pós-grunge tocando rock tradicional com guitarrinhas levemente distorcidas, influências de folk e produção careta. Uma espécie de Hootie and the Blowfish um pouco mais alternativo, na verdade. Tiveram até um pequeno hit (Low), que chegou a tocar razoavelmente bem na MTV. Mas estavam longe de ser algo digno de destaque, apesar de ter um certo apelo na então terra de Bill Clinton.

Muitos anos depois, encontrei numa promoção de queima de encalhe vários cds de uma banda chamada Camper Van Beethoven. A princípio, adorei o nome da banda e a capa de seu álbum auto-intitulado. Resolvi levar alguns por curiosidade. E valeu demais a pena. Aí, fui descobrir que o líder do insosso Cracker, David Lowery, tocou essa banda durante a segunda metade da década de 80 e fui obrigado a revalorizar o cara... Prenunciando o crossover geral que marcaria a década seguinte, o CVB trabalhava sobre uma base folk caótica, com fragmentos de pós-punk, ska, psicodelia e new wave, com letras nonsense e ecos de coisas tão díspares como Velvet Underground, Love, Madness e Byrds. Uma espécie de early R.E.M. lo-fi, num nível de desencanação tão alto que ocultava a pretensão das fusões da banda, mas ainda assim capaz de forjar grandes canções como Take the Skinheads Bowling (já regravada pelos Manic Street Preachers), Wasted e Joe Stalin's Cadillac. Chegaram inclusive a gravar na íntegra um dos clássicos do soft rock americano, Tusk, do Fleetwood Mac, dando roupagens inimaginadas aos clássicos de Stevie Nicks e companhia, com toques de ska, funk e punk distorcendo as composições originais. Enfim, uma descoberta e tanto... Sempre achei estranho que Lowery tenha produzido bandas como o Sparklehorse, mas após descobrir o CVB ficou tudo mais claro. Digamos que quem produziu a banda de Mark Linkous foi o cara do CVB e quem produziu Joan Osborne e Counting Crows foi o líder do Cracker. E tenho dito...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Fever pitch


Existe coisa mais tola que o fanatismo por esportes? Ok, a prática deles, num contexto "politicamente correto" e tal, é mais do aceitável e recomendável, mas me refiro à torcida e culto desmedidos em torno dos mesmos. Nunca entendi as reais motivações que fazem com que certas pessoas encarem seus times e ídolos com fervor quase que religioso. Certas pessoas como eu...

Me recordo de torcer pelo Corinthians desde os 3 anos de idade, sempre de maneira exagerada e apaixonada. Inclusive, nutro um grande carinho pelos plantéis que o Corinthians do saudoso Vicente Matheus manteve ao longo da década de 80. Comecei a acompanhar o futebol durante a ressaca pós-Democracia Corinthiana e não tive infelizmente o prazer de vislumbrar o timaço (dizem) de Mário Travaglini conquistar o bicampeonato paulista de 1982/3, não tendo conhecido em tempo real os clássicos passes de calcanhar, as declarações bombásticas e a técnica refinada do Doutor Sócrates, o vigor de Super-Zé Maria e do eterno moleque Wladimir nas laterais, a força e irreverência do pleonasticamente grande Casagrande, tampouco a classe do meia Zenon... Mas vi o fim de carreira de Biro-Biro pelo menos...

E é pensando em Biro-Biro que me vem à cabeça o fato de que gosto mesmo é de relembrar dos jogadores menos badalados que vi com o manto sagrado ao longo daquela época. Caras como Ezequiel, Wilson Mano, Edmar, João Paulo, todos considerados tecnicamente limitados, mas que suavam sangue por aquela camisa. Mas os ídolos maiores, símbolos do que representa o futebol pra mim, sempre serão o meia Neto e o goleiro Ronaldo. Fã que sou de Dieguito Maradona (o maior jogador que já vi atuar em toda minha vida), era natural que craques polêmicos como ambos ficasse pra sempre em minha memória. Desbocados, marrentos, até desleais em momentos de tensão, Neto e Ronaldo honraram com o coração aquele símbolo, amavam aquela camisa e transmitiam isso pra quem quer fosse. Esse traço passional, de certa forma, atrapalhou a carreira de ambos, pois nunca tiveram clima para ostentar com a mesma gana outros estandartes, mas serviu para eternizá-los como ídolos maiores dos corinthianos da minha geração. Mesmo com todos os títulos conquistados posteriormente, nunca deixarei de lembrar com um sorrisão de orelha a orelha todos os momentos em que vi esses caras em campo, os aplaudi ou xinguei. Essa irracionalidade futebolística deveria me deixar envergonhado, por ser piegas, fútil, infantil e quase estúpida. Mas me enche de orgulho...

terça-feira, 27 de março de 2007

dream asleep in the sand with the ocean washing over

A morte precoce entre roqueiros é um típico fetiche que motiva idolatria, devoção, até gera verdadeiros cultos em torno de seus protagonistas. Desde que eles já sejam conhecidos, que fique bem claro... Algumas vezes, o que acontece é uma revalorização tardia de trabalhos não adequadamente apreciados à sua época, mas nesses casos o status máximo alcançado pelo cadáver é o de cult hero. Alguém se lembra de uma das músicas que rolam logo no início de Vanilla Sky, a desastrosa e didática adaptação americana para o filme mexicano Abra os ojos? É Last Goodbye, do álbum Grace (1994), de Jeff Buckley. Deve ter sido a máxima exposição que Buckley obteve, ainda que póstuma. Filho do trovador folk Tim Buckley, hoje injustamente esquecido, a carreira meteórica de Buckley filho (morto num afogamento no rio Mississipi aos 30 anos, em 1997) legou aos amantes da música o álbum acima citado. Intenso, lírico, musicalmente variado, Grace é um disco que merece ser descoberto em suas minúcias por todos. Indo desde a angústia contida de Mojo Pin à fúria zeppeliniana de Eternal Life, passando por versões fantasmagóricas à Van Morrison circa 1972 de Lilac Wine (canção imortalizada na interpretação da diva Nina Simone) e Hallelujah, do bardo Leonard Cohen, com passagens pelo inferno dos fins de relações turbulentas e do arrependimento (Last Goodbye e Lover, You Should've Come Over), culminando na busca pela redenção em Dream Brother. Não encontro palavras para descrever a sensação trazida por Grace. Ouçam e tirem suas próprias conclusões... Chris Martin ouviu, diluiu e se tornou milionário.

It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever

Lover, You Should've Come Over

E o mundo dá à luz um novo paga-pau de Stevie Wonder

Ao ouvir o primeiro trabalho de James Morrison, intitulado Undiscovered, a primeira sensação que se tem é a de estamos diante de um novo Jamiroquai, com tudo de ruim que isso possa trazer à tona. A faixa de abertura (Under the Influence - título sugestivo...) caberia bem no "clássico" da banda inglesa, Travelling Without Moving. Passada a má impressão inicial, temos um álbum até que palatável, lembrando algumas vezes os melhores momentos do Maroon 5 (Undiscovered, You Give Something), noutras Jamie Cullum e John Mayer(Wonderful World, Call the Police), mas sempre bebendo no groove de Stevie Wonder, com algo de Curtis Mayfield e Sly Stone (mas apenas as coisas mais acessíveis). Não, não é nada que chegue perto dos mestres, mas está vários pontos acima dos diluidores aqui citados, e de muitos outros que surgiram nas últimas décadas, à medida que os trabalhos originais e legais de Wonder iam escasseando. Enquanto a negritude se esbalda no hip hop, sempre haverá alguns branquelos dispostos a ressuscitar esse soul funk setentista que tanta falta nos faz... No fim das contas, o álbum acaba sendo uma boa opção de cabeceira (literalmente), para deixar ao lado de Norah Jones ou Morcheeba, caso não seja possível que se rolem alternativas melhores, como Portishead, Air ou Massive Attack no momento do bote. Melhor que Djavan e Jack Johnson o cara é, com toda a certeza mais que absoluta desse mundo...

quinta-feira, 15 de março de 2007

Who's gonna watch the Watchmen?


Em primeiro lugar, quaisquer elogios que possam ser tecidos a Watchmen, um dos trabalhos que definiu o conceito das modernas histórias em quadrinhos nos anos 80, serão possivelmente insuficientes diante da grandeza da obra de Alan Moore e Dave Gibbons. Isto é lugar-comum, quase unanimidade na comunidade de quadrinhófilos. Resolvi escrever algumas linhas apenas devido à iminência da adaptação da série para o cinema. Algumas adaptações desse gênero têm sido bem sucedidas, como foram os casos de Sin City, X-Men e Spider-Man, porém receio que Watchmen tenderá ao fracasso assim como ocorreu com V for Vendetta. Construído em torno de um enredo extremamente bem engendrado e fantasioso, com diversas citações e "homenagens" aos quadrinhos clássicos de super-heróis, creio que Watchmen é essencialmente um gibi. O visual suntuoso, em parte kitsch, aliado às nuances na caracterização dos personagens e aos pequenos interlúdios na história não me parecem caber bem na telona. Ambientada na metade da década de 80 de um mundo distópico, onde o sonho das Eras de Ouro e Prata dos quadrinhos se tornara um pesadelo corporativo, o cast é composto por personagens bem elaborados, com profundidade poucas vezes vista nas HQ's, mas pontuados por características essencialmente quadrinhísticas, como caricaturas assustadoras ou risíveis de nossos heróis favoritos. Assim sendo, tais nuances e detalhes certamente se perderão numa eventual adaptação, que ser tornará apenas uma aventura com personagens mascarados em meio a uma trama rocambolesca, com total perda da metalinguagem tão cara ao texto de Moore. Será o típico filme digno do comentário "não vi e não gostei". Para fanáticos, simplesmente uma heresia...

Revalorizando os Gorillaz

Receio ter exagerado um pouco nos elogios ao The Good, the Bad and the Queen. Não que o disco não seja ótimo, mas acabei subvalorizando um álbum que considerei excelente desde a primeira audição: Demon Days, dos Gorillaz. O que no primeiro álbum era diversão desenfreada, pretensiosa e desfocada (e ainda assim com muitos momentos brilhantes) foi devidamente enquadrado por Danger Mouse neste segundo álbum. Talvez o que tenha me chamado a atenção no TGTBTQ tenha sido a musicalidade um pouco mais orgânica como banda, mas Danger Mouse já havia mostrado a que veio em Demon Days, conseguindo concentrar o talento de Damon Albarn em um álbum consistente.

sábado, 10 de março de 2007

Simples, singelo... e maravilhoso

É o que penso a respeito do pop toda vez que ouço Lou Reed entoar Pale Blue Eyes ou Stephanie Says. São daqueles momentos delicados em meio à crueza do Velvet Underground que mostram o quanto a falta de apuro técnico realmente não consegue nublar o esplendor de uma bela melodia...

"Corno music" pode ser legal...

(...) o amor é a força que move o rock and roll. (...) Falo de rock de verdade e amores proibidos, torturantes. Sofrimento e dúvida.
Álvaro Pereira Jr. (Escuta aqui - 09/06/1997)

É difícil acrescentar algo à epígrafe acima. A idéia não era original mas, de qualquer forma, ficou bem expressa. A transcrevi a propósito de um dos possíveis subtópicos a ser pensados a partir desse papel do amor no rock'n'roll. Mais do que a dor da não-correspondência, a angústia pela perda iminente ou consumada de algo outrora seguro é também motor para grandes canções e álbuns temáticos, e também para obras tristemente ululantes e monótonas. Pensei sobre isso ao comparar dois álbuns compostos sob tal égide lançados há não muito: Sea Change, de Beck (2003) e 13, do Blur (1999). A crítica praticamente definiu o primeiro como exemplo bem-sucedido e o segundo como fracasso retumbante.
Minha tendência natural me levava a discordar de tal opinião. Acreditava que 13 tinha uma intensidade e uma sinceridade de intenções que impediriam objeções tão contundentes quanto as que foram publicadas à época. Relembrando, o álbum foi composto e lançado logo após o término do relacionamento entre Damon Albarn e Justine Frischmann, então líder do Elastica. Relacionamento que, por sinal, foi abordado com toda o estardalhaço possível pela mídia britânica, com acusações de adultério e indiferença para ambos os lados, mas que, aparentemente, trouxe um grande impacto para Albarn. O álbum é praticamente direcionado a Justine em quase toda sua totalidade, com acusações e demonstrações claras de ressentimento e dor permeando canções como Tender, No Distance Left to Run e 1992, além de declarações abertas de desespero e falta de perspectivas como Trimm Trabb e Mellow Song. É inegável que seja um documento um tanto cru da fase por que Albarn passava, porém, analisando o álbum mais friamente e com o devido distanciamento percebe-se que sua melancolia e verborragia ora irada, ora desesperada foram realmente exageradas e melodramáticas demais. Isso leva a pensar que, na verdade, o real motivo de minha indignação com as opiniões da crítica à época era muito mais pessoal do que propriamente estético. De qualquer forma, com toda suas imperfeições e excessos, 13 tem suas qualidades. E a sinceridade é a principal delas.
Sea Change, composto por Beck após o término de um longo relacionamento, manteve sua habitual alternância entre álbuns de temática festeira, colagens e som caleidoscópico e discos de folk mais tradicional. Canções acústicas, suaves e reflexivas, com um pé na psicodelia pastoril de Donovan, Jefferson Airplane e Love e outro nos sons mais taciturnos de trovadores como Nick Drake e Van Morrison. Mais focado e climático que as tentativas folk anteriores de Beck, Sea Change é um retrato mais realista e com mais pés-no-chão que 13, possivelmente não menos doloroso porém. Canções como Lonesome Tears, The Golden Age, Lost Cause e Guess I'm Doing Fine são dilacerantes e expõem de forma mais elaborada as agruras da situação em questão. Porém, há espaço para alguma esperança em Sunday Sun e Side of the Road. Talvez esse seja o ponto de ruptura em relação ao álbum do Blur. Parece haver uma certa maturidade na maneira como a realidade é encarada.
Enfim, corações partidos sempre moverão a música pop e, mais especificamente, o rock. E a maneira como tais corações reagirão frente a quem os partiu é perfeitamente variável, como acontece em nossas próprias vidas. Por isso mesmo, sempre haverá alguém disposto a ouvir e, infeliz ou oportunamente, se identificar com essas obras. And life goes on...

terça-feira, 6 de março de 2007

The Good, The Bad & The Queen


Dizer que Damon Albarn era uma das personalidades mais idiossincráticas do britpop virou quase um lugar-comum. Sua banda oficial, o Blur, ficou com a pecha de "art school band" em contraposição ao "street rock" do Oasis, e acabou sendo quase sempre subestimada, apesar de lançar álbuns muito consistentes, ainda que um tanto exagerados. Com a debandada do guitarrista Graham Coxon e o desejo de Albarn por novos horizontes musicais, explicitado no Gorillaz (que teve o manha de levar seu caldeirão de punk, dub, hip hop, dance, música latina e climas de trilha sonora para as massas), a opinião geral sobre Albarn manteve-se dividida. Seu novo projeto, The Good, The Bad & The Queen, ao lado dos coajuvantes de luxo Simon Tong (ex-Verve), Tony Allen (Africa 70/Fela Kuti) e Paul Simonon (ex-Clash), traz ainda mais à tona a sanha experimentalista de Albarn. Denso, climático e calculado, o début da banda é um disco de digestão um tanto demorada, porém vale cada audição. Mais focado que o Gorillaz e menos preocupado em ser pop que o Blur, o grupo destila seu dub-funk-folk atmosférico com maestria durante todo o álbum, permeado por um sensação de desolação que, apesar de pouco espontânea, cativa pela intensidade. Doo-wop adulterado em 80's Life, folk psicodélico em Green Fields, dub soturno de Herculean, reggae de branco em Kingdom of Doom, culminando no final apoteótico com a faixa-título, uma longa piração dub. A percussão suave de Allen, as guitarras econômicas de Tong e as marcantes linhas de baixo de Simonon fazem um belo fundo para os lamentos de Albarn, secundado pela boa produção de Danger Mouse, que consegue dar coesão a essa afluência toda de estilos. Ótimo disco.

domingo, 4 de março de 2007

Sal de frutas musical

Existem bandas que se caracterizam por fazer um sonzinho meigo, fofo, bem intencionado, whatever... Em resumo, aquelas músicas que, caso você ouça imediatamente antes de partir pra cima daquele cara que te fechou no semáforo, o máximo que será dito será: "Tenha mais cuidado, seu tonto!"
Estimular os bons sentimentos pode ser uma atitude nobre e louvável, mas às vezes dá no saco. Mas já que há bandas que parecem ter nascido pra isso, tentemos aproveitar sua obra...

Cardigans
Banda sueca formada pela vocalista Nina Persson (musa deste pobre blogueiro) mais 4 garotos com cara de "moço pra casar". Começaram com um som suave, pastoril, de letras inocentes e belas melodias, com um pé no pop à Burt Bacharach. Os meninos até tentavam lembrar seus tempos de camisa preta tocando covers do Black Sabbath, mas os arranjos e os vocais eram tão adocicados que as versões eram quase irreconhecíveis. Depois, as letras se tornaram mais espertinhas, o visual de alguns membros ficou menos casadouro e Nina cresceu. E o som da banda virou um pastiche de coisas como Sheryl Crow. Mas ainda é legalzinho.

Magic Numbers
Espécie de Fat Family britânica especializada em reviver o som melódico e folk dos mid-60's, emulando sem dó The Mamas & The Papas, Cat Stevens e Lovin' Spoonful. Semi-acústico e doce, é o tipo de som que dificilmente evocará algo além de bons sentimentos e alguns bocejos.

Belle & Sebastian
Combo escocês com um gosto especial por folk 60's e belas melodias (de novo), com influência marcante do bardo Nick Drake, Beatles e Smiths. Letras sensíveis com um pé na auto-comiseração e outro na auto-depreciação, embaladas em um instrumental simples, mas dinâmico, com arranjos bem elaborados, sempre mantendo um leve sabor agridoce. Os últimos álbuns fugiram um pouco a essa regra, mas ainda estão longe de qualquer agressividade.

Descobertas tardias nº 1 - Goodbye Yellow Brick Road


Quem cresceu entre os anos 80 e 90, se acostumou a tachar Elton John de "biba engajada que só toca baladas xaroposas". Eu me incluo entre esses hereges. Nem tão heréticos assim, até por que, de fato, John realmente só fez isso por um bom tempo, e sua participação (considerada, de forma um tanto leviana, oportuna à época) no funeral de Lady Di só fez com que crescesse a antipatia por sua alegre e colorida pessoa. Mas ele foi um excelente músico na década de 70. Grande compositor, John se firmou lançando baladas matadoras ao piano e bons rocks, com algo de rockabilly e glitter. Goodbye Yellow Brick Road, lançado em 1973, é o exemplo mais bem acabado dentro da obra do mestre. Há quem prefira Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy (1975) ou Tumbleweed Connection (1971), mas considero que John atingiu seu ápice tanto em termos de ambição artística quanto de sabor pop com GYBR. Belas e arrebatadoras baladas (a faixa-título, Harmony, Roy Rogers, Candle in the Wind), rocks certeiros com um pé no glam (Your Sister can't Twist, Saturday Night's Alright for Fighting, All the Girls Love Alice) e uma maravilhosa suíte quase progressiva (Funeral for a Friend), compondo o supra-sumo da parceria de John com Bernie Taupin. Variado, criativo e surpreendente a cada audição, GYBR é capaz de convencer até o mais radical dos homófobos acerca da capacidade do grande músico que é Elton John, que inclusive vem lançando bons trabalhos ultimamente, como The Captain and the Kid e Peachtree Road.

Drop nº 3 - O loser na música pop (Songs about losers)


O loser, conceito tão caro à cultura pop, já foi "homenageado" em diversas canções de diferentes músicos dos mais variados estilos. Abaixo, alguns bons exemplos...

1- The Beatles - I'm a loser (Beatles for Sale - 1964)
2- Beck - Loser (Mellow Gold - 1994)
3- Motörhead - Loser (Iron Fist - 1982)
4- Cosmic Rough Riders - The loser (Enjoy the Melodic Sunshine - 2000)
5- U.F.O. - I'm a loser (No Heavy Petting - 1976)
6- Jerry Garcia - Loser (Garcia - 1972)
7- Tom Jones - Face of a loser (A-Tom-Ic Jones - 1966)
8- Iggy Pop - Loser (Skull Ring - 2003)
9- Johnny Cash - Born to lose (The Original Sun Sound of... - 1964)
10-Marianne Faithfull - I'm a loser (Marianne Faithfull - 1965)
11-Velocity Girl - Pop loser (Copacetic - 1994)
12-Johnny Thunders and the Heartbreakers - Born to lose (L.A.M.F. Revisited - 1984)
13-N.E.R.D. - Loser (Neptunes present... Clones - 2003)

John Byrne

Gostar de histórias em quadrinhos e elogiar os papas de sempre como Frank Miller, Alan Moore, Neil Gaiman etc é, de certa forma, muito simples. Esses caras se tornaram figuras do universo pop, muito mais abrangente que as páginas das revistinhas. Mas os fãs mais devotados de comics sempre têm suas pequenas paixões secretas com certos autores. O inglês naturalizado americano John Byrne é um de meus favoritos. Esteve ligado à indústria dos quadrinhos desde a década de 70, atingindo seu apogeu criativo durante a década seguinte. Talvez por ser um escritor/desenhista mais voltado ao gênero super-heroístico mais estritamente, nunca atingiu o prestígio dos autores acima citados, mas tem um culto relativamente grande dentre os admiradores da nona arte. Suas criações para os X-Men, no começo da década de 80, ao lado do escritor Chris Claremont, estão entre os grandes momentos dos quadrinhos de heróis, especialmente a saga da Fênix, heroína que, detentora de grandes poderes cósmicos, é devorada pela magnitude de suas necessidades além da compreensão humana e se torna uma ameaça para todo o universo. No climax final da saga, Fênix (então Jean Grey) suicida-se para evitar um cataclisma de proporções irreversíveis. Clássico total... Assim como Days of the Future Past, que antecipa a história narrada por James Cameron em O Exterminador do Futuro em 2 anos, além de lidar com questões sociais não tão em voga nos quadrinhos da época.



Outros trabalhos dignos de nota de Byrne são sua longa série de histórias com o Quarteto Fantástico, que devolveu a dignidade sci-fi originalmente pensada por Stan Lee e Jack Kirby para a série inicialmente, mas que se perdeu durante os anos 70. A saga que narra a segunda vinda de Galactus a nosso planeta é sensacional.


Em meados da década de 80, Byrne foi contratado pela DC Comics para reformular o personagem Superman, frente às mudanças de mercado e cronologia vivenciadas após a minissérie Crise nas Infinitas Terras. Talvez aqui resida um dos pontos fracos da obra de Byrne, muito mais pela comparação com a reformulação proposta por Frank Miller para Batman, mais densa, sombria e carregada, e, portanto, mais fiel à década perdida. Byrne tentou humanizar o personagem, porém, preso às amarras que décadas de tradição trouxeram a Clark Kent e seu alter ego, não conseguiu muita expressividade. Ainda assim, deixou como legado uma figura mais coerente de Lex Luthor como empresário inescrupuloso e arqui-inimigo do Superman e atualizou Lois Lane como uma personagem com enfoque mais atual, feminista até.


As aventuras da Tropa Alfa (Alpha Flight), equipe de super-heróis canadenses que eram uma espécie de mescla de conceitos entre X-Men e Vingadores também foram um exemplo bem-sucedido dentro da obra de Byrne, talvez o único momento grandioso dentro da história desse malfadado supergrupo. E a reformulação da Mulher Hulk por Byrne também não foi um passo dos melhores, perdendo na comparação de quadrinhos engraçadinhos com os então darlings da crítica da Liga da Justiça, de J.M. De Matteis, Keith Giffen e Kevin Maguire.


Infelizmente, a produção mais recente de Byrne não chegou ao nível daquilo que o mesmo fez no passado. Mas é sempre bom ver algum título dele nas bancas; é certo pelo menos que haverá bons desenhos e roteiros minimamente criativos.