domingo, 9 de setembro de 2007

O fim do rock

Francis Fukuyama clamava em 1989 que estávamos vivendo o "fim da história", diante da queda do muro de Berlim e do conseqüente predomínio da democracia liberal como forma de pensamento político-econômico hegemônico. É uma teoria deveras contestável, uma vez que confronta diretamente com todas as outras linhas de pensamento que têm alguma relevância, porém parte de um pressuposto bastante palatável, ainda que extremo. De qualquer forma, os 18 anos que se seguiram até os dias atuais mostraram o quanto o apanágio de Fukuyama era válido.
Aplicando o princípio à música pop, mais especificamente à sua variante mais vinculada à cultura jovem, o famigerado rock, é improvável não traçar certos paralelos e, enfim, crer na possibilidade de que tenhamos chegado ao "fim do rock", pelo menos como o conhecemos.
Vejamos, quais foram os últimos momentos de criatividade genuína e impacto no mundinho rock? A ascensão do grunge no começo da década passada? A chegada da música eletrônica ao mainstream na segunda metade da década? O advento do pós-rock?
É forçoso alçar qualquer um desses movimentos históricos à posição de pontos de ruptura, mesmo por que ainda estão um tanto próximos. Porém, se Fukuyama pôde fazer sua análise praticamente sendo um contemporâneo do que narrava, por que não arriscar?
O rock teve grandes passos evolutivos desde seu início. Da fusão de country e r&b com tensão sexual trazida ao grande público por Elvis à sua institucionalização como parte fundamental da cultura de massas adolescente com os Beatles na década seguintes, do experimentalismo irrefreável da geração psicodélica à liberação de instintos primais do proto-punk, da frieza dos primeiros sons eletrônicos à aparente dominação da máquina pelo homem no tecnopop, do descompromisso do "do it yourself" do punk'77 ao direcionamento livre e pretensioso dos pós-punks... Todos esses processos foram dinâmicos e envolveram procedimentos de construção/desconstrução em relação a estruturas vigentes, mantendo o princípio entrópico que assombra geração após geração, no que tange à necessidade por novas e satisfatórias formas que sejam relevantes como música rock.
Porém, o que acontece agora? Temos revisionismos diversos, sem que se aglutinem novos conceitos que gerem nova música. É evidente que a crise da indústria fonográfica tradicional, que presencia seu rápido ocaso, contribui de forma decisiva, ao encolher um mercado já pequeno. Tudo o que ouvimos agora são versões levemente atualizadas em termos comportamentais do que era ouvido há 15, 20, 30 anos. Desde que o grunge foi estuprado e devorado pela indústria, o underground, meio de fomento das novas formas, onde as mesmas se desenvolvem até que se tornem digeríveis para a grande massa, se tornou apenas mais um meio de ascensão por um lado, ou de isolamento por outro. O esgotamento criativo só perpetua esse perverso status quo, onde nada se cria, nem nada se transforma. Caso se configure essa situação de eterna repetição, temo que tenhamos chegado ao fim do rock como demonstração dos clamores e aspirações da cultura jovem.