segunda-feira, 28 de julho de 2008

Astro City


Após anos labutando em títulos de menor impacto e sem grande liberdade criativa graças às amarras editoriais típicas dos quadrinhos de super-herói, o escritor Kurt Busiek apareceu de fato na minissérie Marvels (1994), parceria com o desenhista/pintor Alex Ross, que propunha uma visão humanizada para as origens do Universo Marvel. A abordagem fugia aos clichês típicos do gênero, aprofundando a velha questão sobre como seria o impacto da existência de super-heróis num mundo próximo ao real. Pouco tempo depois, trouxe à tona, inicialmente pela Image Comics, aquela que acredito ser sua obra-prima. Astro City, co-criação com Brent Anderson e Alex Ross, narra a vida em uma cidade povoada por superseres, homenageando idéias e conceitos que definem os quadrinhos de super-heróis desde a Era de Ouro até os dias atuais, invertendo o ponto de vista de Marvels. O foco agora passa a ser a vida de um herói dentro do mundo real, muitas vezes mais confuso e complexo que o mundo fictício das páginas hipercoloridas dos gibis. Diversos habitantes de Astro City são paródias explícitas de cruzados clássicos, como Inquisidor & Altar Boy (Batman & Robin), Samaritano (Superman), All-American (Capitão América), A Primeira Família (Quarteto Fantástico), entre outros tantos. Explorando os dilemas morais, problemas prosaicos e conflitos emocionais dos envolvidos, Busiek dá uma dimensão trágica e humanista a questões singelas que poderiam passar despercebidas em meio a crimes do dia-a-dia, invasões alienígenas e confrontos com supervilões que almejam a dominação mundial. Com citações a muitos autores clássicos, a série Astro City é mais do que uma rebuscada história de heróis para adultos. É uma linda declaração de amor a um gênero que sobrevive de forma realmente heróica à inexorável passagem do tempo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Estupidez não vai alimentar minha alma


Os Manic Street Preachers são praticamente um guilty pleasure do mundinho indie. Evidentemente, já forjaram grandes trabalhos, especialmente o álbum The Holy Bible, canto-de-cisne do período em que contavam com o guitarrista e compositor Richey James que, afora suas limitações técnicas, era capaz de musicar e criar grandes canções tendo como pano de fundo as inquietações advindas de sua turbulenta vida pessoal e de sua confusa visão do mundo, tendo como alicerce um hard rock eficiente com muita influência punk e alguns elementos das mais rasteiras bandas de glam metal da década de 80. Após o estranho desaparecimento de Richey, os Manics remanescentes optaram por cantar uma busca por ideais e a defesa intransigente de uma cartilha política ultrapassada e infantil que culminou em álbuns povoados por manifestos de auto-ajuda entremeados com libelos panfletários verdadeiramente embaraçosos. Havia espasmos criativos ainda, mas para cada um destes sempre havia bobagens em quantidade suficiente para decepcionar os mais dedicados (e sensatos) admiradores. O auge dessa guinada rumo à idiotice foi, com certeza, o álbum Know your Enemy, de 2001. Não bastando a batida estratégia de tocar em Cuba durante a turnê do álbum (obviamente lançado por uma multinacional), a banda conseguiu aprofundar o que já era vexatório no single Masses against the classes, lançado pouco antes da bolacha, preenchendo o álbum com letras de protesto pífias e palavras de ordem que fariam todo o sentido em algum ponto perdido da década de 60, mas que hoje soam apenas como declarações de ignorância anacrônica e total descompasso com o atual estado das coisas, culminando na sintomática Freedom of speech won't feed my children, último prego no caixão de qualquer resquício de sensatez que a banda poderia ostentar. Um horrendo epitáfio para um grupo que sempre se valeu de todas as facilidades do torpe mundo capitalista para divulgar seus princípios. Verdadeiros luxos como liberdade de expressão e imprensa... Felizmente, a história já mostrou que a música não basta para mudar o mundo. Se discos como esse mudassem algo, com certeza não seria para melhor. Hasta la revolución, siempre!

Electric Six - Fire (2003)

Hoje talvez o som dessa banda de Detroit não ofereça nada demais. Mas quando foi lançado, em meio ao revival de garage rock capitaneado por Hives, Von Bondies e seus conterrâneos White Stripes, fazia todo o sentido. A princípio, um rock sujo, pesado, com bons riffs e referências a Stooges, AC/DC, Sex Pistols, com um diferencial: aqui e acolá, uma cozinha disco/funk temperava o som dos caras com um sabor dançante irresistível. A explosão do então chamado novo rock, com suas bandas que resgatavam os sons do pós-punk e da new wave era o contexto apropriado para a banda e seu som irreverente. Danger: high voltage e Gay bar são divertidíssimas até hoje, com seus vocais graves à Lemmy Kilmister, ritmos manjados e letras toscas. A banda existe até hoje, mas nunca mais alcançou a mesma exposição, apesar de continuar lançando discos interessantes. E os clipes de Gay bar são verdadeiros tesouros perdidos, como é possível conferir abaixo...

Youtube: Gay bar (Bush/Blair) (versão banida nos EUA)
Youtube: Danger: High voltage
Youtube: Gay Bar (Abraham Lincoln)
Youtube: Dance Commander
Youtube: Synthesizer

terça-feira, 8 de julho de 2008

MGMT - Oracular Spectacular (2008)

Dave Fridmann é mesmo o cara. Produzindo alguns dos melhores trabalhos da década passada, especialmente com seus parceiros Flaming Lips (Soft Bulletin, de 1999) e Mercury Rev (Deserter's Songs, de 1998), além de ótimas bandas como Delgados, Phantom Planet e Mogwai, Fridmann praticamente definiu uma sonoridade própria a seu corpo de trabalho, um rock psicodélico com arranjos requintados e densos, até sinfônicos, com alguns floreios eletrônicos. Escalado para produzir a estréia da dupla americana MGMT (sigla extraída de ManaGeMenT, denominação inicial da dupla), um outrora projeto de electroclash formado pelos universitários Ben Goldwasser e Andrew Van Wyngarden, sua influência se faz notar desde a faixa de abertura, Time to Pretend. Equilibrando a psicodelia carregada do produtor com beats de bom gosto, o álbum é um belo exemplar de rock moderno, com groove e melodias pegajosas disputando espaço. À melancolia de The Youth se seguem a jornada space disco da excelente Electric Feel e o electro à Ladytron de Kids. Pieces of what começa folk e vai crescendo até se tornar new wave na faixa seguinte (Of Moons, Birds & Monsters). A última música, Future reflections combina à perfeição as origens dançantes da banda à verve noise viajandona de seu atual guru. Apesar de a intervenção de Fridmann ter sido fundamental, fato inegável é a qualidade das composições, o que pressupõe um futuro alentador para a dupla.

Youtube: Time to pretend
Youtube: Electric Feel
Youtube: Kids

domingo, 6 de julho de 2008

Beulah - When your heartstrings break (1999)

A segunda metade da década de 90 foi um período relativamente confuso para a música indie. Ao mesmo tempo em que era observado o ocaso do rock alternativo na sua acepção tradicional, do pós-grunge angustiado das bandas americanas que explodiram na esteira de Nevermind e do boom de Seattle, o britpop entrava em decadência após sua breve glória e a música eletrônica era saudada como o próximo passo. Além disso, o Radiohead lançava o álbum que seria talvez o último grande clássico da década, Ok Computer, em 1997. Paralelamente a isso, um grupo de músicos americanos criava um pequeno, porém interessante projeto, o selo Elephant 6. Liderado por Robert Schneider (The Apples in Stereo) e Jeff Mangum (Olivia Tremor Control), o selo acabou por se tornar praticamente um coletivo, com músicos tocando em múltiplos projetos, com a preocupação única de se manter fiel à sua paixão pelo folk e rock psicodélico clássicos, com claras influências de bandas como Beatles, Beach Boys e Love, em produções de baixo custo e alto teor melódico. O Beulah, apesar de não ter feito parte da fundação do coletivo, passou a integrá-lo, em grande parte devido à afinidade artística incrível que compartilhava com os membros primevos da turma. Após um primeiro álbum um tanto hesitante, mas já com bons momentos (Handsome Western States, de 1997), a banda esmerou e lapidou sem som quase à perfeição na obra seguinte. When your heartstrings break, lançado 2 anos após a estréia, é uma fantástica coleção de melodias doces, embaladas por arranjos elaborados, com metais e sopros ornamentando as belas composições de Miles Kurosky. Como a própria banda comentou à época, o som passou de "lo-fi para mid-fi", uma vez que tratava-se de uma produção barata e praticamente artesanal. Evocando o clima pastoril e ingênuo do melhor pop sessentista, a banda atinge seu ápice em músicas como Sunday under glass e Emma blowgun's last stand, exercita um lado mais bubblegum em Ballad of the lonely argonaut e The aristocratic swells, finalizando com as emoções contidas, ainda que intensas, de Warmer e principalmente da tocante If we can land a man on the moon, surely I can win your heart, que contém a verdadeira profissão de fé abaixo:

Cause all you need is a pretty song..

If you wanna sing
Tell me what you wanna sing
and I'll play..
Yea, I'll play
Speed it up or slow it down
and if you want we'll change the sound
Yea, we'll play..
Yea, we'll play..
Anything that you want
All we want from you
Is a word or two..

and even though
We dont show
We cast our nets like missionaries
If we sell out.. Oh well..
Our only fan will be changing costumes..
And you'll see its much the same
So sing a song
And for applause.. We'll get up, get up


Um daqueles discos capazes de salvar vidas...

Onde baixar: Pasa Musica

Youtube: Emma blowgun's last stand
Youtube: If we can land a man on the moon, surely I can win your heart (live)

Músicas de outros álbuns:
Youtube: Gravity's bringing us down (The Coast is never clear - 2001)
Youtube: Landslide Baby (Yoko - 2003)
Youtube: Gene Autry (The Coast is never clear - 2001)
Youtube: Popular mechanics for lovers(The Coast is never clear - 2001) Obs.: uma das letras mais engenhosamente simples sobre amor que já vi... Popular mechanics for lovers lyrics

Am I cracking up or just getting older?


Pete Townshend cantou essa jogada há muitas décadas... Mas não teve culhão para cumprir sua bravata. Assim como a grande maioria dos músicos e fãs do gênero, com exceção daqueles que partiram acidentalmente (ou não). De qualquer forma, para o ouvinte médio de rock, existem sinais, alguns sutis, outros nem tanto, de que a areia está começando a se acumular na extremidade errada da ampulheta. Vejamos...

1. Fleetwood Mac - Alguém se imagina ouvindo Landslide ou Rhiannon aos 17 anos? Se emocionando ao som de Sara? Desconsiderando aquele visual hippie de butique na parte feminina, caminhoneiro "charmoso" entre os rapazes? E se alguém reclamar, ainda corre o risco de ouvir algo como "ah, mas naquela idade eu não tinha sensibilidade para apreciar melodias tão maduras"...


Youtube: Fleetwood Mac - Sara

2. Bruce Springsteen - Gostar do boss é algo natural... Mesmo sendo jovem. O problema é quando se começa a nutrir um respeito quase sobrenatural, dylanesco até, pelo cidadão. O chefão é bom, muito bom... Mas não é Deus, tampouco Dylan.








Youtube: Bruce Springsteen - The River

3. Rock progressivo - Depois de anos criticando aqueles solos intermináveis de guitarra/bateria/flauta/etc, aquelas letras pseudo-intelectuais, aquelas capas datadas e kitsch da Hypgnosis e do Rodger Dean, aquele esoterismo gratuito, o cidadão se pega ouvindo Pink Floyd... Cita o Syd Barrett pra se justificar. Meses depois, está comprando Songs from the Topographic Oceans e dizendo o quanto a ética punk limitou suas preferências durante tanto tempo.

Youtube:Yes - Starship Trooper

4. MPB - Mutantes são o primeiro sintoma... É psicodelia, Kurt Cobain gostava, Belle & Sebastian e The Bees regravaram A Minha Menina, toca no reclame do McDonalds... Depois, está ouvindo Caetano e Gil, mas só a fase mais tropicalista. Aí, percebe que está gostando daquelas faixas que não tem absolutamente nada de pop ou rock. Bom, você acaba ouvindo Chico no final...







Youtube:Novos Baianos - A Menina Dança


5. Impaciência com hypes - É até possível imaginar a situação. Seu sobrinho, animado com o tio "roqueiro véio", puxa conversa sobre a nova banda que saiu na capa de alguma NME de dezembro de 2015. No papel de tio zeloso, querendo posar de jovem (é claro), você se dispõe a ouvir a tal banda. Acha todas as músicas muito parecidas entre si, mas consola o mancebo: "legal essa banda, mas estão fazendo muito alarde e o som não é muito original, me lembra coisas como Velvet, Television". Até entregar os pontos: "bom mesmo era na minha época, já ouviu Strokes?"...

Youtube:Arctic Monkeys - Mardy Bum (live @ Glastonbury)

Alguns devem estar se perguntando... E Eagles? Bem, envelhecer é uma coisa, perder o senso de ridículo é outra...

sábado, 5 de julho de 2008

Ween - White Pepper (2000)

Usar termos como idiossincrático ou eclético é lugar comum sempre que se tenta falar a respeito do som do Ween. Tendo como núcleo criativo o duo Dean e Gene Ween, a banda surpreende os ouvintes desde GodWeenSatan: The Oneness, estréia lançada no agora longínquo 1990. Rock pesado, progressivo, jazz rock, ritmos exóticos, country, funk, pop simples... Tudo servindo de base para letras ora nonsense, ora corrosivas, às vezes até doces. Parece um tanto indigesto, mas ouvindo Pure Guava (1992), Chocolate and Cheese (1994), The Mollusk (1997) ou Quebec (2003), tudo parece até fazer algum sentido. Mas não é destes discos que se tratam essas mal escritas. White Pepper, de 2000, é considerado um ponto baixo na carreira da banda, talvez por ser o álbum de audição mais fácil de sua carreira. Apesar de conter a mesma miríade de estilos que é marca registrada da banda, tudo soa extremamente fácil e pegajoso, já à primeira audição. Optando por dar alguma beleza ao caos, o Ween caprichou nas melodias, evitou arranjos muito intrincados e pariu uma pérola de seu som amalucado. Power pop, pós-punk, Beach Boys, Beatles e Steely Dan, com alguns interlúdios mais pesados, narrando temas mais palpáveis. Sem nenhum grande destaque individual, o disco é bom e coeso em seu todo. Onde tudo deveria soar desafiador e imprevisível, predomina uma sensação de harmonia que permeia a maioria das faixas. A crítica torceu um pouco o nariz à época, mas hoje trata-se de uma obra que merece revisão. Pode-se argumentar que o mundo precisa mais do velho Ween do que de mais uma banda de pop convencional, especialmente numa época carente de coisas como Mr. Bungle ou discos legais do Primus (um paradoxo para alguns). Mas renegar um trabalho bom como esse apenas por princípios é uma pequena sacanagem.

Youtube: Even if you don't
Youtube: Flutes of Chi (Gene Ween acoustic)
Youtube: Exactly where I'm at (live @ David Letterman)