sexta-feira, 29 de junho de 2007

Música brasileira para nerds

Para a geração crescida no mundo pós-Nevermind, um ambiente anglófilo e guitarreiro por excelência, a abertura para sons calcados em compassos não-4X4 sempre foi um tanto difícil. A assimilação da música eletrônica após o desbunde raver da segunda metade dos anos 90 foi um primeiro passo, mas aquele monstro que todo adolescente do período amava odiar, a tal Música Popular Brasileira, era um desafio maior... Para este pobre escriba de blog, um desafio longo, que acabou por levar a grandes descobertas e surpresas. Ah, esses preconceitos bobos de moleque...

(A lista abaixo conterá quase apenas obviedades, afinal por que começar buscando obscuridades se há tantas portas mais acessíveis e igualmente interessantes a ser descobertas)

Novos Baianos - Acabou Chorare (1972)
De longe, a melhor coisa já gravada nesse país... Um equilibrado crossover de samba, bossa nova e rock, capaz de conter referências explícitas ao mestre João Gilberto, como na faixa-título, melodias pop bem resolvidas em A Menina Dança, o delírio guitarrístico percussivo de Tinindo Trincando, que trazia as distorções de Hendrix ao terceiro mundo, até o samba deslavado e irreverente de Besta és tu, além de tudo isto junto em Mistério do Planeta e na instrumental Um bilhete para Didi. A era de Aquário traduzida para os bichos-grilos destes então ainda mais tristes trópicos.

Caetano Veloso - Transa (1972)
A produção de Caê nunca foi tão cosmopolita como em seus tempos de exílio. Gravado em Londres, com auxílio luxuoso (arranjos de Jards Macalé, bateria e percussão de Tutty Moreno), Transa é a síntese perfeita do encontro entre a anarquia tropicalista com a música anglo-saxã, melancólico e intenso como Caetano já ensaiara em seu álbum anterior, auto-intitulado. Uma verdadeira sucessão de pérolas: You don't know me, Nine out of ten, Mora na filosofia...

Os Mutantes - Os Mutantes (1968)
Psicodelia de vanguarda, especialmenta para os padrões da época. O som de garagem dos nuggets americanos, contaminado pelos ideais de resgate da música brasileira realmente popular dos tropicalistas, em um verdadeiro happening musical-comportamental sem precedentes. Musicalmente, os dois álbuns seguintes eram até mais bem acabados, mas o ar inusitado da estréia do trio paulistano não deixa opção a não ser o louvor. A cama musical para a poesia livre de Panis et circensis, Baby e Bat Macumba, o regionalismo irreverente de Adeus Maria Fulô e a anarquia beatnik de Senhor F e Ave Genghis Khan fazem com que este álbum seja realmente atemporal.