Francis Fukuyama clamava em 1989 que estávamos vivendo o "fim da história", diante da queda do muro de Berlim e do conseqüente predomínio da democracia liberal como forma de pensamento político-econômico hegemônico. É uma teoria deveras contestável, uma vez que confronta diretamente com todas as outras linhas de pensamento que têm alguma relevância, porém parte de um pressuposto bastante palatável, ainda que extremo. De qualquer forma, os 18 anos que se seguiram até os dias atuais mostraram o quanto o apanágio de Fukuyama era válido.
Aplicando o princípio à música pop, mais especificamente à sua variante mais vinculada à cultura jovem, o famigerado rock, é improvável não traçar certos paralelos e, enfim, crer na possibilidade de que tenhamos chegado ao "fim do rock", pelo menos como o conhecemos.
Vejamos, quais foram os últimos momentos de criatividade genuína e impacto no mundinho rock? A ascensão do grunge no começo da década passada? A chegada da música eletrônica ao mainstream na segunda metade da década? O advento do pós-rock?
É forçoso alçar qualquer um desses movimentos históricos à posição de pontos de ruptura, mesmo por que ainda estão um tanto próximos. Porém, se Fukuyama pôde fazer sua análise praticamente sendo um contemporâneo do que narrava, por que não arriscar?
O rock teve grandes passos evolutivos desde seu início. Da fusão de country e r&b com tensão sexual trazida ao grande público por Elvis à sua institucionalização como parte fundamental da cultura de massas adolescente com os Beatles na década seguintes, do experimentalismo irrefreável da geração psicodélica à liberação de instintos primais do proto-punk, da frieza dos primeiros sons eletrônicos à aparente dominação da máquina pelo homem no tecnopop, do descompromisso do "do it yourself" do punk'77 ao direcionamento livre e pretensioso dos pós-punks... Todos esses processos foram dinâmicos e envolveram procedimentos de construção/desconstrução em relação a estruturas vigentes, mantendo o princípio entrópico que assombra geração após geração, no que tange à necessidade por novas e satisfatórias formas que sejam relevantes como música rock.
Porém, o que acontece agora? Temos revisionismos diversos, sem que se aglutinem novos conceitos que gerem nova música. É evidente que a crise da indústria fonográfica tradicional, que presencia seu rápido ocaso, contribui de forma decisiva, ao encolher um mercado já pequeno. Tudo o que ouvimos agora são versões levemente atualizadas em termos comportamentais do que era ouvido há 15, 20, 30 anos. Desde que o grunge foi estuprado e devorado pela indústria, o underground, meio de fomento das novas formas, onde as mesmas se desenvolvem até que se tornem digeríveis para a grande massa, se tornou apenas mais um meio de ascensão por um lado, ou de isolamento por outro. O esgotamento criativo só perpetua esse perverso status quo, onde nada se cria, nem nada se transforma. Caso se configure essa situação de eterna repetição, temo que tenhamos chegado ao fim do rock como demonstração dos clamores e aspirações da cultura jovem.
domingo, 9 de setembro de 2007
sábado, 25 de agosto de 2007
O disco de power pop do ano
O Ash já teve seus grandes momentos, entre os álbuns 1977 e Free All Angels, quando lançava canções que encheriam de orgulho de Buzzcocks e Undertones a Badfinger e Cheap Trick, sem contar seus contemporâneos ligeiramente mais velhos Weezer e Fountains of Wayne. Não há muito para onde avançar na proposta da banda: melodias grudentas sobre uma base francamente punk/hard rock. De qualquer forma, os irlandeses continuam lançando álbuns dignos, mantendo uma carreira regular.Twilight of the Innocents, mais novo rebento da banda, é o que se espera de um trabalho típico do Ash. Algum peso nas guitarras, belas melodias vocais, catchy songs a todo instante, baladinhas pungentes que fazem com que o ouvinte se sinta com 15 anos... É um som baseado em fórmulas bem manjadas, mas que funciona graças às boas composições de Tim Wheeler. Em alguns momentos, uma audição menos atenta pode fazer com que se confunda algumas passagens com emos genéricos, especialmente no refrão da ótima Blacklisted, mas a banda consegue fugir de tamanha obviedade, caprichando nas cordas da linda End of the world, no pianinho de Polaris e no peso calculado de You can't have it all e I started a fire, sem contar a agridoce Shadows. A variação é pequena entre os álbuns, mas não chega a se caracterizar uma "síndrome de Ramones". E eles ainda são melhores que qualquer American Hi-Fi ou My Chemical Romance, ainda que seus melhores trabalhos já pertençam ao passado.
Youtube: End of the World
Youtube: Polaris
Youtube: You can't have it all
Youtube: I started a fire
quinta-feira, 5 de julho de 2007
O Sol nas bancas de promoção
Colecionar cds sempre foi uma atividade um tanto onerosa, até mesmo em tempos de preços menos inflacionados. Porém, como constitui-se quase que em dependência física/psíquica para alguns, se torna inevitável... Estar no Brasil, especialmente em cidades mais provincianas, tem suas vantagens nesses momentos. Parafraseando uma passagem do jornalista Álvaro Pereira Jr., em um "contexto cultural xenófobo, auto-referente e primordialmente autóctone como o brasileiro", levando-se em conta ainda que boa parcela da população tem dificuldades inclusive em compreender a própria linguagem nativa (os índices de analfabetismo funcional não me permitem mentir), é evidente que, com exceção dos sucessos massificados à força pelos "formadores de opinião", é difícil que alguma obra pop de outro país atinja grande sucesso de vendas por aqui. Além dessas, ainda há grandes trabalhos da própria música nacional que também podem ser encontrados nessa situação. O que dizer então de obras um pouco mais à esquerda do pop? Assim sendo, fuçar bancas de promoção em lojas de discos e sebos acaba sempre sendo uma opção excelente para adquirir e mesmo conhecer bons trabalhos, principalmente quando a opção pela música virtual ainda não foi muito bem assimilada pelo desbravador/consumidor compulsivo. Abaixo, citarei algumas coisinhas obtidas nessas circunstâncias, sempre por preço inferior a 10 pilas...
Ane Brun - A Temporary Dive (2005)
A norueguesa Ane Brun faz um pop delicado, com arranjos de cordas belos e esparsos, ótimos violões, lembrando bastante os bons momentos de Cat Power e Leslie Feist, ou mesmo Tori Amos, principal inspiração de todas as citadas. Tem até participação de Ron Sexsmith na ótima Song no. 6. Confira no encarte a (falta de) beleza da cantora e entenda parte do porquê de sua trajetória rumo ao anonimato.
Youtube:Ane Brun (feat. Ron Sexsmith - Song n. 6
Saves the Day - In Reverie (2003)
Partindo do punk pop/emo dos primeiros álbuns, o Saves the Day conseguiu envelhecer um pouco nesse trabalho, lembrando uma espécie de Death Cab for Cutie da fase Transatlanticism (bem) menos pretensioso. Boas melodias, vocais menos apelativos e tramas de guitarras legais, mostrando que emos podem ter futuro (coisa que os Get Up Kids e, muito antes, o Sunny Day Real State já haviam provado). Dá pra ouvir What went wrong e, especialmente, Driving in the dark e desconsiderar as franjinhas e cabelos coloridos.
Youtube: Saves the Day - Anywhere with you
Novos Baianos - Novos Baianos F.C. / Novos Baianos (Série 2 em 1) (1973/74)
Ambos não têm a mesma genialidade do álbum anterior, o inigualável Acabou Chorare, mas a chance de ouvir a guitarra de Pepeu Gomes, os vocais de Baby Consuelo e os bons sambas de Moraes Moreira e Galvão, todos ainda em seus respectivos auges criativos, ainda por cima por um precinho camarada, é imperdível.
Youtube: Novos Baianos - Mistério do Planeta
The Black Keys - Thickfreakness (2003)
Blues punk com alguma inflexão soul nos vocais, com um groove todo peculiar. Com uma produção menos tosca que os primeiros álbuns dos White Stripes, o também duo produziu um disco de responsa. As faixas Set you free e Hard row, além do boa versão de Have love will travel, de Chuck Berry, convencem fácil, fácil.
Youtube: The Black Keys - Set you free
Astromato - Melodias de uma estrela falsa (2000)
A banda campineira foi saudada por parte da imprensa como possível revelação pop nacional quando lançou esse trabalho, desistindo das composições em inglês de seu projeto anterior, o Weed. Power pop e shoegazer até a medula, o álbum (independente) infelizmente flopou e pode ser encontrado com facilidade em sebos. Só quem ouviu Através da chuva, Canção do adolescente e Cadeialimentar pode se remoer ao imaginar que o povão passou esse tempo todo ouvindo Charlie Brown Jr, Capital Inicial e outra pérolas, enquanto essa maravilha se contentou com uns gatos pingados (e fiéis)...
Ane Brun - A Temporary Dive (2005)
A norueguesa Ane Brun faz um pop delicado, com arranjos de cordas belos e esparsos, ótimos violões, lembrando bastante os bons momentos de Cat Power e Leslie Feist, ou mesmo Tori Amos, principal inspiração de todas as citadas. Tem até participação de Ron Sexsmith na ótima Song no. 6. Confira no encarte a (falta de) beleza da cantora e entenda parte do porquê de sua trajetória rumo ao anonimato.
Youtube:Ane Brun (feat. Ron Sexsmith - Song n. 6
Saves the Day - In Reverie (2003)
Partindo do punk pop/emo dos primeiros álbuns, o Saves the Day conseguiu envelhecer um pouco nesse trabalho, lembrando uma espécie de Death Cab for Cutie da fase Transatlanticism (bem) menos pretensioso. Boas melodias, vocais menos apelativos e tramas de guitarras legais, mostrando que emos podem ter futuro (coisa que os Get Up Kids e, muito antes, o Sunny Day Real State já haviam provado). Dá pra ouvir What went wrong e, especialmente, Driving in the dark e desconsiderar as franjinhas e cabelos coloridos.
Youtube: Saves the Day - Anywhere with you
Ambos não têm a mesma genialidade do álbum anterior, o inigualável Acabou Chorare, mas a chance de ouvir a guitarra de Pepeu Gomes, os vocais de Baby Consuelo e os bons sambas de Moraes Moreira e Galvão, todos ainda em seus respectivos auges criativos, ainda por cima por um precinho camarada, é imperdível.
Youtube: Novos Baianos - Mistério do Planeta
The Black Keys - Thickfreakness (2003)
Blues punk com alguma inflexão soul nos vocais, com um groove todo peculiar. Com uma produção menos tosca que os primeiros álbuns dos White Stripes, o também duo produziu um disco de responsa. As faixas Set you free e Hard row, além do boa versão de Have love will travel, de Chuck Berry, convencem fácil, fácil.
Youtube: The Black Keys - Set you free
Astromato - Melodias de uma estrela falsa (2000)
A banda campineira foi saudada por parte da imprensa como possível revelação pop nacional quando lançou esse trabalho, desistindo das composições em inglês de seu projeto anterior, o Weed. Power pop e shoegazer até a medula, o álbum (independente) infelizmente flopou e pode ser encontrado com facilidade em sebos. Só quem ouviu Através da chuva, Canção do adolescente e Cadeialimentar pode se remoer ao imaginar que o povão passou esse tempo todo ouvindo Charlie Brown Jr, Capital Inicial e outra pérolas, enquanto essa maravilha se contentou com uns gatos pingados (e fiéis)...
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Música brasileira para nerds
Para a geração crescida no mundo pós-Nevermind, um ambiente anglófilo e guitarreiro por excelência, a abertura para sons calcados em compassos não-4X4 sempre foi um tanto difícil. A assimilação da música eletrônica após o desbunde raver da segunda metade dos anos 90 foi um primeiro passo, mas aquele monstro que todo adolescente do período amava odiar, a tal Música Popular Brasileira, era um desafio maior... Para este pobre escriba de blog, um desafio longo, que acabou por levar a grandes descobertas e surpresas. Ah, esses preconceitos bobos de moleque...
(A lista abaixo conterá quase apenas obviedades, afinal por que começar buscando obscuridades se há tantas portas mais acessíveis e igualmente interessantes a ser descobertas)
Novos Baianos - Acabou Chorare (1972)
De longe, a melhor coisa já gravada nesse país... Um equilibrado crossover de samba, bossa nova e rock, capaz de conter referências explícitas ao mestre João Gilberto, como na faixa-título, melodias pop bem resolvidas em A Menina Dança, o delírio guitarrístico percussivo de Tinindo Trincando, que trazia as distorções de Hendrix ao terceiro mundo, até o samba deslavado e irreverente de Besta és tu, além de tudo isto junto em Mistério do Planeta e na instrumental Um bilhete para Didi. A era de Aquário traduzida para os bichos-grilos destes então ainda mais tristes trópicos.
Caetano Veloso - Transa (1972)
A produção de Caê nunca foi tão cosmopolita como em seus tempos de exílio. Gravado em Londres, com auxílio luxuoso (arranjos de Jards Macalé, bateria e percussão de Tutty Moreno), Transa é a síntese perfeita do encontro entre a anarquia tropicalista com a música anglo-saxã, melancólico e intenso como Caetano já ensaiara em seu álbum anterior, auto-intitulado. Uma verdadeira sucessão de pérolas: You don't know me, Nine out of ten, Mora na filosofia...
Os Mutantes - Os Mutantes (1968)
Psicodelia de vanguarda, especialmenta para os padrões da época. O som de garagem dos nuggets americanos, contaminado pelos ideais de resgate da música brasileira realmente popular dos tropicalistas, em um verdadeiro happening musical-comportamental sem precedentes. Musicalmente, os dois álbuns seguintes eram até mais bem acabados, mas o ar inusitado da estréia do trio paulistano não deixa opção a não ser o louvor. A cama musical para a poesia livre de Panis et circensis, Baby e Bat Macumba, o regionalismo irreverente de Adeus Maria Fulô e a anarquia beatnik de Senhor F e Ave Genghis Khan fazem com que este álbum seja realmente atemporal.
(A lista abaixo conterá quase apenas obviedades, afinal por que começar buscando obscuridades se há tantas portas mais acessíveis e igualmente interessantes a ser descobertas)
Novos Baianos - Acabou Chorare (1972)De longe, a melhor coisa já gravada nesse país... Um equilibrado crossover de samba, bossa nova e rock, capaz de conter referências explícitas ao mestre João Gilberto, como na faixa-título, melodias pop bem resolvidas em A Menina Dança, o delírio guitarrístico percussivo de Tinindo Trincando, que trazia as distorções de Hendrix ao terceiro mundo, até o samba deslavado e irreverente de Besta és tu, além de tudo isto junto em Mistério do Planeta e na instrumental Um bilhete para Didi. A era de Aquário traduzida para os bichos-grilos destes então ainda mais tristes trópicos.
Caetano Veloso - Transa (1972)A produção de Caê nunca foi tão cosmopolita como em seus tempos de exílio. Gravado em Londres, com auxílio luxuoso (arranjos de Jards Macalé, bateria e percussão de Tutty Moreno), Transa é a síntese perfeita do encontro entre a anarquia tropicalista com a música anglo-saxã, melancólico e intenso como Caetano já ensaiara em seu álbum anterior, auto-intitulado. Uma verdadeira sucessão de pérolas: You don't know me, Nine out of ten, Mora na filosofia...
Os Mutantes - Os Mutantes (1968)Psicodelia de vanguarda, especialmenta para os padrões da época. O som de garagem dos nuggets americanos, contaminado pelos ideais de resgate da música brasileira realmente popular dos tropicalistas, em um verdadeiro happening musical-comportamental sem precedentes. Musicalmente, os dois álbuns seguintes eram até mais bem acabados, mas o ar inusitado da estréia do trio paulistano não deixa opção a não ser o louvor. A cama musical para a poesia livre de Panis et circensis, Baby e Bat Macumba, o regionalismo irreverente de Adeus Maria Fulô e a anarquia beatnik de Senhor F e Ave Genghis Khan fazem com que este álbum seja realmente atemporal.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Sinfonia da destruição na meia-idade
Falar qualquer coisa sobre Lou Reed sempre soa redundante. É como discutir as obras de Bowie, Beatles, Marvin Gaye, Stones ou Sabbath. Nunca há grandes novidades ou sacadas originais a ser ditas sobre coisas já tão (bem ou mal) dissecadas perante o grande público. O que resta aos pobres mortais é conhecer seus trabalhos e delinear suas próprias preferências e opiniões a respeito. Ecstasy, álbum de Reed lançado em 2000 e hoje relegado ao esquecimento como quase tudo que o mestre lançou após os grandes New York (tributo lançado em 1989 à cidade que, mais do que mero cenário, é praticamente um dos personagens principais de tudo que ele já escreveu e cantou) e Songs for Drella (homenagem de 1990 a Andy Warhol, feita em parceria com o parceiro/desafeto John Cale, que veio a mostrar a sinergia da crueza de Reed e a contemporaneidade de Cale, já ouvida antes nos dois primeiros trabalhos do Velvet Underground), é bom exemplo de como é possível ser relevante trabalhando sobre temas triviais. Fundado numa econômica base guitarra-baixo-bateria ora suave, ora quase punk, o álbum é praticamente uma obra conceitual sobre casamentos, sua evolução e seu fim. Tratando a famigerada instituição burguesa em alguns momentos com desprezo, noutros com carinho e, na maior parte do álbum, com desapontamento e melancolia, Reed traça um perfil amargo sobre a finitude dos sentimentos e a estreiteza de princípios que regem as uniões. Infidelidade, paranóia, desonestidade, os filhos e seu peso, a morte do amor como força criadora. Usando de letras aterradoramente simples e sarcásticas, restam poucos tijolos intactos após o vendaval de constatações vomitadas com rancor por Reed (I need a guru / I need some law to explain to me the things we saw / why it always comes to this / it's all downhill after the first kiss, em Modern Dance; Some people yell and scream / and some do not / Some people sacrifice their lives / and some do not / Some people wait for sleep / to take them away / While others read books endlessly / hoping problems will go away, em Tatters). Há tempo para questionar a importância do amor e qual seu papel em um relacionamento, numa das mais belas letras de Reed (What do you call love / Well I don't call it family and I don't call it lust / and as we all know marriage isn't a must / And I suppose in the end, it's a matter of trust / if I had to I'd call love time Well for me time has no meaning, no future, no past / and when you're in love, you don't have to ask / There's never enough time to hold love in your grasp turning time around, em Turning time around). O pesadelo da meia-idade desemboca na catártica Like a Possum, onde o encadeamento de desilusões acaba numa surreal possessão demoníaca, que dura longos (e modorrentos) 18 minutos, entre gritos, microfonias e cantos sobre bestialidade, drogas e loucura. Porém, quase inesperadamente, existe alguma esperança, trazida em Big Sky, nos lembrando que, após tudo, nossa hipocrisia nos garante a possibilidade de remissão para que possamos repetir os mesmos erros ad infinitum. Um disco subestimado de um músico que merece ser ouvido com atenção mesmo em seus momentos menos luminosos.
domingo, 27 de maio de 2007
Meninas superpoderosas
Meninas de sorte as pós-adolescentes da atual década. Faz todo o sentido do mundo chamar Dolores O'Riordan (vocalista dos Cranberries) de voz feminina dos anos de 90. Mas um sentido pejorativo em relação a tal decênio. O espírito de transgressão feminina na música da década passada pode ser facilmente dividido em 3 grandes segmentos: a agressão político-social a cargo de Dolores, o fashionismo blasé decadente de Shirley Manson (Garbage) e o feminismo barato e pós-adolescente de Alanis Morissette, ignorando propositalmente a violência gratuita e sem absorvente das riot grrls (L7, Bikini Kill, Babes in Toyland). Mas nenhuma delas exala o frescor e espontaneidade de meninas como Lily Allen, Amy Winehouse ou mesmo Regina Spektor. Vejo nas primeiras uma evolução do tapa-na-cara pasteurizado de Sinéad O'Connor, por exemplo. Em resumo, gente que tenta hiperbolizar o banal até torná-lo épico. Com a nova geração, um boquete no cinema é simplesmente um boquete no cinema, não uma representação icônica de décadas de opressão. Essas meninas que bebem e trepam pra se divertir (e não pra agredir e mostrar o quão independentes conseguem ser) são muito mais bem resolvidas...
Menos piadinhas fariam bem
O segundo álbum do trio Faichecleres (A calçada da fama) praticamente aprimora a fórmula de sua estréia (Indecente, imoral e sem-vergonha, de 2004). Por um lado, isso é ótimo: a sonoridade mod/garage rock à Kinks/Who/early Stones continua intacta, com um avanço melódico bastante notável. Por outro, mantiveram-se as letras monotemáticas sobre sexo/meninas/malandragem, com direito a todas as tiradas mais infames do gênero "duplo-sentido". E como cansam... Nada contra, o rock sempre foi (e deve ser) sacana, desde seu batismo (rock'n'roll, para quem não sabe, é uma gíria sulista norte-americana para cópula), grandes obras giram em torno do tema inclusive, mas um pouco de sutileza em certos momentos talvez soasse melhor. No aspecto estritamente musical, sem queixas. Quem gosta de rock sessentista básico deliciar-se-á com a sonoridade "Kinks e Who encontram a Jovem-Guarda" de A calçada da fama, O que eu bem entender e O seu cafajeste, além da reverência explícita às franjinhas merseybeat de Beatles, Hollies ou Herman's Hermits de Alice D., O otário ou Beibê, eu só te quero na minha cama. Nada de regionalismos baratos para fazer média com crítico engajado ou elementos fora de lugar para soar moderno. Muito mais bem resolvido do que qualquer coisa gravada pelo Cachorro Grande, só para ficar na mesma praia.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Eles foram nu metal...
A primeira coisa que ouvi do Incubus foi uma música na trilha sonora de Spawn, em 1998 ou 99, parceria com um tal DJ Greyboy. Na época, ainda ouvia bastante metal, inclusive o dito nu metal, e achava Korn, Limp Bizkit e Deftones legais, então foi fácil gostar do tal Incubus (cujo nome parecia coisa de black metal, diga-se). Seu álbum da época, S.C.I.E.N.C.E., parecia uma versão adolescente atualizada do funk metal putaria do Faith no More, especialmente os vocais do então magrelão com bigodinho safado Brandon Boyd. Os álbuns seguintes melhoraram bastante minhas perspectivas quanto à banda, ao abrirem as portas para um som mais pop; eu e os caras tínhamos crescido um pouco e precisávamos de coisas como Drive (do bom Make Yourself) e Warning (do excelente Morning View), precisas e com groove. Não mudaram o mundo, mas eram boas músicas em bons discos, numa época em que nu metal passou a ser sinônimo de lixo. Agora, passados alguns anos, com o Limp Bizkit e seu infame líder Fred Durst quase esquecidos, o Korn se atolando com um unplugged pra lá de inoportuno e os Deftones cada vez mais isolados com seu nu metal cerebral (como dito pelo Marco Bezzi numa resenha pra Bizz), o Incubus talvez seja a última banda do gênero com os pés fincados no chão que ainda lance alguma coisa aprazível (descontando coisas como Linkin Park, que sempre deixaram claro que seu target era o público menor de 14 anos de idade). Light Grenades, lançado por esses meses, é bom exemplo disto. Grudento e acessível, mantém ainda algum suíngue, o agora quase-sex symbol Boyd consegue fugir das comparações com Mike Patton com vocais variados e grande percepção pop e a banda segue fazendo um rock honesto e bom de ouvir. Seja chafurdando nas afinações baixas outrora tão caras em Dig ou A Kiss to send us off, na delicadeza da balada Love Hurts (não é cover do "crássico", apesar de a letra ser igualmente piegas), voltando a pegar pesado no groove metalizado em Diamonds and coal e na ótima Rogues, a banda parece ter chegado a uma identidade musical bem delineada, sem grandes pretensões, mas sempre eficiente. Enfim, mais um ponto alto na carreira dos caras.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Macacos sem fôlego
Louvável a atitude de uma banda nova em lançar um segundo disco sem a menor pretensão de mudar o mundo ou demonstrar uma falsa evolução, especialmente quando um ano o separa da estréia da mesma. Afinal, os Arctic Monkeys ainda são os mesmos caras (com exceção da troca de baixistas) de vinte e pouquinhos anos... Mas um tiquinho de vigor pra manter o pique era fundamental. No début (Whatever people say I am, that's what I'm not), amado por muitos, odiado por muitos mais (mais pelo hype exagerado do que propriamente pela música), pelo menos havia catchy songs aos borbotões (da disco punk grudenta de I bet that you look good on the dancefloor ao pop sessentista de Mardy Bum, passando pelos momentos "Libertines com melodia" de A certain romance, Fake tales of San Francisco e When the sun goes down). Mas em Favourite Worst Nightmare, que começa a toda octanagem com as guitarras pesadinhas de Brianstorm, o caldo entorna rapidamente. Há poucos ganchos e, com exceção da faixa inicial, do momento Franz Ferdinand em Teddy Picker e da nova (e ótima) referência ao pop 60's em Fluorescent Adolescent (facilmente a melhor música do álbum, com suas referências a doo wop e rock de garagem clássico), nada mais chama a atenção, fazendo com que o álbum se pareça com uma coleção de b-sides indistinguíveis e sem graça. Ponto positivo pela autenticidade em lançar um disco despretensioso, negativo pela falta de inspiração.
sábado, 12 de maio de 2007
Não vai mudar a vida de ninguém, mas é muito legal
Foi o que pensei após ouvir o segundo álbum do Razorlight, epônimo. Não há originalidade, mas o trabalho artesanal na reciclagem de boas referências de soft e college rock e power pop merece bom crédito. O clima new wave de In the morning, a dor de corno blue-eyed Motown de Who needs love? (na mesma vertente de Under Control, dos Strokes), a referência (ou reverência) explícita ao REM em Pop Song 2006, a batida levemente country de Kirby's house, todos os elementos/clichês funcionam às mil maravilhas, logicamente amparados por belas composições. Não descobriram a roda, mas deixaram um dos melhores trabalhos pop nota 8 do ano, ao lado das estréias de Feeling (Twelve Stops and Home) e Mika (Life in Cartoon Motion).
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Audições aleatórias
Electrafixion - Lowdown O segundo single do projeto mezzo pesadinho mezzo etéreo dos então ex-Echo and the Bunnymen Will Sergeant e Ian McCulloch põe no chinelo boa parte do álbum que ambos lançaram sob esse nome. Na verdade, os b-sides soam muito mais como o próprio Echo do que o disco. E são mais legais que a produção recente da banda titular(Flowers, Siberia).
Small Faces - Ogden's Nut Gone Flake Em 1967, todo mundo resolveu se tornar psicodélico. Os Small Faces (uma espécie de The Who do B) também, e deixaram essa maravilha para a posteridade. Orgulho britânico e lisergia bem dosadas em grandes canções, como Lazy Sunday, Afterglow e a suíte Happiness Stan. Mais legal que os Stones psicodélicos de Their Satanic Majesties Request.
The Jesus and Mary Chain - Automatic A sonoridade é muuuito datada. Mas as músicas não, felizmente. Afinal, como um disco que tem Head on, Blues from a Gun, Gimme Hell e Halfway to Crazy pode ser ruim? Esqueça a bateria eletrônica e o baixo sintetizado e caia de cabeça no álbum que dosou a barulheira de Psychocandy e a melodia de Darklands, com um belo aceno para o mainstream.
Eddie and the Hot Rods - The End of the Beginning Punk rock pode soar muito repetitivo e maçante. Mas essa coletânea mostra que também pode ser divertido, estimulante e nem tão descartável quando bem executado. Influências de Them e Dr. Feelgood na caruda, energia primal e muita gana nas interpretações, sem muita seriedade. Isn't it what rock'n'roll was supposed to be?
Black Beat Kenneth Gamble e Leon Huff são freqüentemente lembrados como os caras que fizeram a transição entre o soul/funk mais pesado e menos acessível da gravadora Stax com o lado mais mellow da Motown, diluindo o som denso com vocais mais delicados, muitos metais e batidas disco em canções mais curtas. Disso nasceu o Philly sound (ou soul da Philadelphia), tema dessa coletânea. Discussões sobre comercialismo à parte, a obra de gente como Harold Melvin and the Blue Notes, Isley Brothers e O'Jays dispensa críticas. Som que desce liso, chega macio até a pelve e culminou nos bailes black da década de 70.
terça-feira, 8 de maio de 2007
That's 70's show
Poder gastar uma tarde toda ouvindo álbuns de boogie e hard rock setentão é quase uma bênção. É legal e desafiador ouvir sons mais elaborados ou instigantes, mas na hora H sempre cai bem ouvir o arroz com feijão roqueiro que, verdade seja dita, foi consolidado por estas bandas, de Led Zeppelin e Free a Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, todos bebendo na fonte bluesy dos Rolling Stones e embalando o som em uma temática redneck estradeira irresistível em sua obtusidade.
Uma recém-lançada coletânea dos Doobie Brothers foi o pontapé inicial da jornada. Guitarras espertas, linhas de baixo discretas porém sinuosas, um sabor country que nunca chega a ser exagerado emoldurando letras sexistas e hedonistas na medida. Listen to the Music, Jesus is just Alrigh, Long Train Runnin' e Rockin' down the Highway traduzem bem o espírito. As faixas mais tardias, com uma influência de soul plastificado e mais adultas perdem o fio da meada, mas mantêm alguma dignidade.
O álbum Rocks do Aerosmith é, na minha opinião, a pedra fundamental do estilo. Alunos aplicados, Steven Tyler e Joe Perry buscam inspiração no groove zeppeliniano, sem perder de vista as lições deixadas por Jagger & Richards. Rock safado, despudorado, exagerado e despretensioso, como um Led Zeppelin sem grandiloqüência, focado em vocais rasgados e riffs matadores (e que riffs...) em um disco que não tem um único ponto baixo. Rock de arena antes que esse termo se tornasse pejorativo.
O Grand Funk Railroad talvez seja um dos menos lembrados do gênero. Mas têm seu valor, e suas músicas grosseiras e cheias de punch se adequam bem ao sabor testosterônico do público-alvo. A coletânea Collector Series de 1991 dá um apanhado interessante na carreira, sem esquecer os principais pontos como Inside Looking Out, Closer to Home, Footstompin' Music, We're an American Band e o acento mais pop de The Loco-motion. Rock burrão, sem nuances ou sutilezas. E excelente.
Enquanto segmentos do rock caminhavam por outros caminhos, herdados de estruturas mais livres, a partir de psicodelia, jazz fusion, atonalismo e música proto-eletrônica e étnica, os agora tiozões (quase avós) preferiram manter essa mística anti-intelectual, quadrada e cercada de groupies gostosas. Os nerds reclusos e inexpressivos que precisavam de catarse agradecem...
Uma recém-lançada coletânea dos Doobie Brothers foi o pontapé inicial da jornada. Guitarras espertas, linhas de baixo discretas porém sinuosas, um sabor country que nunca chega a ser exagerado emoldurando letras sexistas e hedonistas na medida. Listen to the Music, Jesus is just Alrigh, Long Train Runnin' e Rockin' down the Highway traduzem bem o espírito. As faixas mais tardias, com uma influência de soul plastificado e mais adultas perdem o fio da meada, mas mantêm alguma dignidade.
O álbum Rocks do Aerosmith é, na minha opinião, a pedra fundamental do estilo. Alunos aplicados, Steven Tyler e Joe Perry buscam inspiração no groove zeppeliniano, sem perder de vista as lições deixadas por Jagger & Richards. Rock safado, despudorado, exagerado e despretensioso, como um Led Zeppelin sem grandiloqüência, focado em vocais rasgados e riffs matadores (e que riffs...) em um disco que não tem um único ponto baixo. Rock de arena antes que esse termo se tornasse pejorativo.
O Grand Funk Railroad talvez seja um dos menos lembrados do gênero. Mas têm seu valor, e suas músicas grosseiras e cheias de punch se adequam bem ao sabor testosterônico do público-alvo. A coletânea Collector Series de 1991 dá um apanhado interessante na carreira, sem esquecer os principais pontos como Inside Looking Out, Closer to Home, Footstompin' Music, We're an American Band e o acento mais pop de The Loco-motion. Rock burrão, sem nuances ou sutilezas. E excelente.Enquanto segmentos do rock caminhavam por outros caminhos, herdados de estruturas mais livres, a partir de psicodelia, jazz fusion, atonalismo e música proto-eletrônica e étnica, os agora tiozões (quase avós) preferiram manter essa mística anti-intelectual, quadrada e cercada de groupies gostosas. Os nerds reclusos e inexpressivos que precisavam de catarse agradecem...
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Kaiser Chiefs - Yours Truly, Angry Mob
Ouvir um disco após ler várias resenhas sobre o mesmo pode ser extremamente frustrante e previsível. Ou surpreendente... Felizmente, foi o caso desse segundo play dos Kaiser Chiefs. Esperava encontrar um trabalho sem fôlego, repetitivo e sem grandes atrativos, graças aos comentários desanimados que havia lido. Mas me deparei com um álbum conciso, bem produzido, com várias catchy songs e boas idéias. Musicalmente, a banda continua reprocessando o mod tardio do Jam via Blur, com um sabor 80s herdado da new wave e um pé fincado na psicodelia de garagem mais light. Mas as músicas são tão exatas e imediatas que fui fisgado de cara, sem maior esforço. Ruby é fantástica, com sua vibe sessentista, sua letra sarcástica e seu ritmo contagiante e refrão forte. Perfeita... The Angry Mob mantém o pique, assim como Heat Dies Down. Love's not a Competition (But I'm Winning) engana com seu título ululante, mas é muito grudenta e imediata, lembrando bons momentos do pop oitentista, inclusive coisas manjadas como Church, Lloyd Cole e Echo and the Bunnymen. E as músicas vão seguindo sem pontos baixos, mesmo sem nada genial. A bela I Can't Do It Without You lembra os primeiros trabalhos solo de Morrissey, com uma pegada menos autopiedosa. Everything is Average Nowadays desperdiça uma boa chance de desenvolvimento lírico, mas musicalmente é um power pop tão perfeito, numa linha Cheap Trick com algo de Cars que se torna difícil não se levar pelo som. Boxing Champ, não creditada, é uma lição de como uma balada pode ser melancólica e bem humorada, ao falar sobre envelhecimento e dificuldades de ajuste. Try your Best começa sem maiores expecatativas, mas cresce em um clímax quase épico próximo do fim. A última faixa, Retirement honra a falta de noção lírica da banda, mostrada no álbum anterior (alguém se lembra do verso "Pneumothorax is a word that is long", de Saturday Night?), sendo talvez o ponto mais baixo do álbum. E a música nem é ruim! Enfim, devo ser um dos poucos a considerar que os caras evoluíram desde Employment, mas achei o disco muito coeso e cheio de boas canções, com uma homogeneidade que não se torna maçante em momento algum.
quarta-feira, 2 de maio de 2007
Klaxons - Myths of the Near Future
A tal "new rave" já foi tão dissecada nos últimos meses que nem vale mais a pena ficar naquele papo de "é rave mesmo?", "é new mesmo?" que vem imperando quando se fala nos Klaxons e em seus coleguinhas menos hypados como Simian Mobile Disco e Shitdisco. Levando em conta, apenas o primeiro disco dos Klaxons, posso dizer que muitas comparações são um tanto indevidas (não tem tanto em comum com a cena indie dance de Madchester 'circa 90, exceto pelo som ser rock dançante) e muitos comentários empolgados foram meio exagerados. O disco é legal à beça, isso é inegável. Batidas disco, alguma eletrônica, boas guitarradas, psicodelia light, alguns belos pontos altos: Atlantis to Interzone, Golden Skans, Magick, It's not over yet e Four horsemen são realmente fodaças. A produção poderia ser um pouco mais lapidada, mas também não é essa merda tão enorme que andam comentando. Pena que às vezes, o som fique um tanto repetitivo em meio à maçaroca sonora que dilui boas idéias em músicas um tanto insossas. De qualquer forma, convenhamos... é uma ótima estréia. Dá pra ficar ansioso pelo segundo álbum, com toda a certeza.
terça-feira, 1 de maio de 2007
Eu não disse?
"Rolling Stone publica lista dos artistas mais embaraçosos da história
A revista Rolling Stone americana publicou uma lista feita com a ajuda dos leitores elegendo os 25 artistas que as pessoas mais se envergonham de admitir que gostam. Nomes do rock progressivo aparecem ao lado de nomes do hard rock, do soft rock e até de cantores brega-românticos. Segue abaixo a lista completa:
01 - Rush
02 - E.L.O.
03 - Journey
04 - ABBA
05 - Chicago
06 - Boston
07 - Foreigner
08 - Bread
09 - Bon Jovi
10 - New Edition
11 - The Monkees
12 - Motley Crue
13 - STYX
14 - Eddie Money
15 - Simply Red
16 - Kelly Clarkson
17 - America
18 - Wham
19 - R.E.O. Speedwagon
20 - Poison
21 - Lionel Richie
22 - Kansas
23 - Air Supply
24 - Hall & Oates
25 - Britney Spears"
É tudo tão uncool assim? É óbvio que muitas dessas coisas ainda freqüentam minha discoteca por razões quase que apenas pessoais/afetivas, mas tachar todos esses artistas ou grupos como intrinsecamente ruins me parece um grande exagero... Alguns dos citados merecem comentários à parte.
1- Rush: é legal, ponto final.
2- E.L.O.: é exagerado, as letras são pífias, em resumo, é completamente brega. Mas, porra, quem vai dizer que as melodias de Living Thing, Sweet Talking Woman ou Evil Woman são de todo ruins? Acho que vale a pena possuir pelo menos uma coletânea da banda.
8- Bread: se a baba escorre pelo Teenage Fanclub ou pelo Fountains of Wayne é legal, pelo Bread não. Preconceito bobo de indie recalcado.
11- The Monkees: ah vá. Embaraçoso é o caralho! E não é só da fase psicodélica e autoral, mesmo a anterior tem muita coisa que vale a pena.
12- Mötley Crüe: desafio alguém a citar 5 hard rocks dos últimos 10 anos que cheguem perto de Shout at the Devil, Looks that Kill, Too fast for love, Same ol' situation ou Primal Scream!
15- Simply Red: quem tem a minha idade e nunca usou de For your babies ou Stars (com gosto) para conseguir alguma coisa, que atire a primeira pedra.
17- America: repito o que disse a respeito do Bread.
Esse papo bobo de música de responsa versus música descartável já deveria ter sido enterrado há tempos. E estou surpreso por não haver mais progs nessa lista...
A revista Rolling Stone americana publicou uma lista feita com a ajuda dos leitores elegendo os 25 artistas que as pessoas mais se envergonham de admitir que gostam. Nomes do rock progressivo aparecem ao lado de nomes do hard rock, do soft rock e até de cantores brega-românticos. Segue abaixo a lista completa:
01 - Rush
02 - E.L.O.
03 - Journey
04 - ABBA
05 - Chicago
06 - Boston
07 - Foreigner
08 - Bread
09 - Bon Jovi
10 - New Edition
11 - The Monkees
12 - Motley Crue
13 - STYX
14 - Eddie Money
15 - Simply Red
16 - Kelly Clarkson
17 - America
18 - Wham
19 - R.E.O. Speedwagon
20 - Poison
21 - Lionel Richie
22 - Kansas
23 - Air Supply
24 - Hall & Oates
25 - Britney Spears"
É tudo tão uncool assim? É óbvio que muitas dessas coisas ainda freqüentam minha discoteca por razões quase que apenas pessoais/afetivas, mas tachar todos esses artistas ou grupos como intrinsecamente ruins me parece um grande exagero... Alguns dos citados merecem comentários à parte.
1- Rush: é legal, ponto final.
2- E.L.O.: é exagerado, as letras são pífias, em resumo, é completamente brega. Mas, porra, quem vai dizer que as melodias de Living Thing, Sweet Talking Woman ou Evil Woman são de todo ruins? Acho que vale a pena possuir pelo menos uma coletânea da banda.
8- Bread: se a baba escorre pelo Teenage Fanclub ou pelo Fountains of Wayne é legal, pelo Bread não. Preconceito bobo de indie recalcado.
11- The Monkees: ah vá. Embaraçoso é o caralho! E não é só da fase psicodélica e autoral, mesmo a anterior tem muita coisa que vale a pena.
12- Mötley Crüe: desafio alguém a citar 5 hard rocks dos últimos 10 anos que cheguem perto de Shout at the Devil, Looks that Kill, Too fast for love, Same ol' situation ou Primal Scream!
15- Simply Red: quem tem a minha idade e nunca usou de For your babies ou Stars (com gosto) para conseguir alguma coisa, que atire a primeira pedra.
17- America: repito o que disse a respeito do Bread.
Esse papo bobo de música de responsa versus música descartável já deveria ter sido enterrado há tempos. E estou surpreso por não haver mais progs nessa lista...
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Eu gosto de Rush...

Minha criação musical se deu quase que completamente nos anos 90. Sempre vale a pena lembrar qual eram os lemas do período histórico em questão, no rock pelo menos: atitude é o que importa, seja lá o que isso signifique. E, no fim das contas, atitude era apenas um item a mais na grande butique do rock'n'roll, vendida como uma espécie de atestado de credibilidade e autenticidade necessário pro imberbe que desenvolvesse algum pendor pelo gênero. Rock progressivo, música erudita, jazz, MPB, tudo que cheirasse a pretensão exagerada era naturalmente rejeitado sem maior crítica. Basicamente, a mídia musical ditava essa conduta. E os tais imberbes não tinham tanto poder de argumentação pra nadar contra a corrente. Felizmente, todos envelhecemos e temos oportunidade pra rever certos conceitos errôneos.
Conheci o Rush (como cerca de 90% dos brasileiros que conhecem a banda) através da abertura do seriado Profissão Perigo, do lendário McGyver, o mestre das gambiarras. A música que rolava era Tom Sawyer, um dos marcos da fase mais pop da banda. Bem, anos depois, com o furacão grunge e a cultura do metal mais extremo permeando o direcionamento que o gosto musical do adolescente médio deveria seguir, ficou difícil tentar conhecer mais a fundo a banda sem se considerar ridículo. Afinal, virtuosismo instrumental e letras bem elaboradas (mesmo que pedantes) não estavam na ordem da casa...
Mais uma década depois, sou obrigado a estender a mão à palmatória e admitir que sempre se tratou de uma puuuta banda. Seja imitando o Led Zeppelin ou fazendo uma versão mais hard do Police, ou mesmo em looongas viagens instrumentais beirando o progressivo, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart (John Rutsey no primeiro álbum) conseguiram construir uma obra grande com muitos pontos altos. E extremamente divertida também. E esse é o ponto... O preconceito cego que a crítica criada à base de pós-punk/new wave/punk desenvolveu impedia que certas coisas fossem observadas em sua plenitude. Se você considerasse The Spirit of Radio uma música legal, provavelmente você deveria estar com algum problema, algum tipo de retardo. Hoje, poder ler alguma crítica e simplesmente dizer "foda-se" me parece muito mais saudável.
Espero que na próxima vez em que eles passarem pelo Brasil, eu tenha a oportunidade de presenciar seu show. E espero que a lavagem cerebral proposta por certos setores desse moedor de carne chamado crítica não seja tão perene para todos que a conhecem.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Foxbase Alpha
Quando adquiri esse álbum, primeiro da banda inglesa Saint Etienne, conhecia apenas algumas faixas esparsas do grupo, mais especificamente Who do you think you are? e Like a Motorway, de trabalhos posteriores. À primeira vista, pirei com a capa retrô, mas quando botei o cd pra rolar, fiquei deslumbrado. Only Love Can Break your Heart, versão europop/house para uma canção quase esquecida de Neil Young desce redondo, desde a interpretação intensa (que não é de Sarah Cracknell, vocalista do grupo, mas de uma tal Moira Lambert) até o bom gosto na escolha dos beats e timbres. E é só o começo... No decorrer do álbum, continua a visita aos melhores momentos do pop e lounge dos 60's, com batidas atualizadas e dançantes, letras ora nostálgicas, ora sarcásticas, sempre entoadas de modo angelical, com interlúdios bem interessantes entre as faixas, citando transmissões de rádio, jogos de futebol, britânicas até a medula. Spring fascina imediatamente com sua melodia envolvente e letra ingênua (It's only springtime, oh, you're too young to say you're through with love / It's only springtime, and I'll be different, I'll be different, I swear to you ). A linha de baixo de Nothing Can Stop Us Now mostra como o Deee-Lite poderia ter sido uma banda mais legal, caso tivesse mais finesse e senso de ridículo. E finalmente chegamos à coda London Belongs to Me, ode relaxante e fofinha à cidade natal da banda. Um dos melhores grupos formados por jornalistas musicais (Pete Wiggs e Bob Stanley) que já conheci, num dos álbuns que iniciaram o processo de revalorização do pop dos 60's com sabor dançante que ocorreu durante a década passada: chique, kitsch, melódico e meigo na medida exata.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Decepção e surpresa agradável
Fui ouvir Through the Windowpane, primeiro álbum dos Guillemots, cheio de expectativas e quebrei a cara... Tantas resenhas elogiosas me fizeram crer que se trataria de uma estréia maravilhosa, mas, ao rolar o som, frustração completa. Uma música afetada, sem vigor, com arranjos de corda exagerados e algumas vezes deslocados em meio ao contexto, sem canções fortes o suficiente para acomodar tamanho "sentimento". Algo como se o Echo and the Bunnymen tivesse surgido após o Arcade Fire. De qualquer forma, em uma música solitária os ingredientes parecem ter dado realmente certo: Trains to Brazil, dedicada ao brasileiro morto no metrô de Londres. Mas é muito, muito pouco para segurar um álbum todo...
Já em relação ao début das Long Blondes (Someone to Drive You Home), que escutei sem esperar algo tão legal, pelas descrições como mais uma banda new wave guitarreira que já havia lido, não digo o mesmo. Letras sagazes, base dançante esperta, guitarras espertas, uma vocalista com personalidade e, principalmente, uma banda focada e com boas composições. Gamei à primeira audição. Blondie com mais guitarras, Elastica com menos fillers chatos por disco... Enfim, todas as lições mais pop do pós-punk/new wave recitadas à perfeição. Recomendadíssimo...
sexta-feira, 6 de abril de 2007
300 equívocos
Clones

You're just a clone,
Got no control,
Forced in a mold,
Processed and sold (...)
Shame, that everyone's the same
I thought you stood alone
Different from the clones
I thought you were the truth
Exception to the rules
But the truth is cruel
Ash - Clones (Meltdown - 2003)
Originalidade é o que faz com que a música pop e qualquer manifestação cultural evoluam. Mais óbvio que isso, talvez apenas dizer que o céu é azul, Elvis sempre será o Rei e Maradona era o cara nos anos 80. Anyway, nem sempre as engrenagens que movem os eixos de tais manifestações são as únicas coisas pelas quais temos nosso interesse despertado. Bandas derivativas, que nunca conseguiram criar absolutamente nenhum trabalho minimamente original, também podem fazer álbuns interessantes e legais, especialmente se tiverem talento suficiente para efetuar a reciclagem dos clichês ou idéias de maneira que os faça soar com fervor e urgência. Abaixo, são citados aleatoriamente alguns clones que podem ser considerados boas opções para os fãs das bandas originais.
Feeder - Cópia britânica dos Smashing Pumpkins, nunca chegaram a ter algum destaque real ou perene. Mas pelo menos deixaram um bom disco (Polythene), com pelo menos uma versão ligeiramente mais pausterizada das baladas de Billy Corgan que conseguia soar realmente legal (High).
Yo La Tengo - Desde a postura de palco do vocalista Ira Kaplan (que, caso se casasse com um traveco, não seria surpresa nenhuma... até por que provavelmente o traveco seria mais feminino que sua companheira, a baterista Georgia Kaplan) até a insistência em forjar melodias ultra-simples de guitarra e músicas onde feedback e white noise eram a ordem da casa, tudo nessa banda americana lembrava muito o grande Velvet Underground. Pelo menos, deixaram três grandes álbuns para a posteridade (Painful, Hear the Heart Beating as One e ...And then Nothing Turned Itself Inside Out).
Trash Can Sinatras - Banda escocesa que chupava descaradamente os Smiths, desde os vocais languidamente melancólicos de Frank Reader, até as tramas de guitarras dedilhadas, adicionando alguma heterossexualidade ao mundo de Morrissey & Marr. Nunca obtiveram grande exposição, mas seu álbum de estréia, Cake, merecia melhor sorte, nem que fosse pelo single Obscurity Knocks.
Galaxie 500 - Dizia-se que poucos ouviram o primeiro álbum do Velvet Underground, mas esses poucos com certeza fundaram algumas bandas. E a reincidência da trupe de Lou Reed por aqui acaba por confirmar essa teoria. O neozelandês Dean Wareham canalizava suas canções sobre desilusão, apatia e inquietude no mesmo pacote protopunk da banda de Reed. Após o fim do Galaxie 500 (que deixou o soberto On Fire), a banda seguinte de Wareham, o Luna, seguiu por essa mesma trilha, conseguindo alguns bons resultados no álbum Bewitched.
The Raveonettes / Black Rebel Motorcycle Club - Dentro
da simplicidade de sua proposta, é até certo ponto surpreendente que os escoceses do Jesus and Mary Chain tenham aberto tantas possibilidades dentro de seu noise approach. O duo dinamarquês Raveonettes explora a faceta mais doce da banda, sujando o máximo que pode belas melodias e letras nostálgicas. Já o BRMC trilhava em seus dois primeiros álbuns o caminho mais ríspido e angustiado do lado mais rocker do JAMC, com grande êxito, diga-se. Depois, conheceram a música folk e o country e esqueceram os pedais em casa durante a gravação do terceiro álbum, numa das guinadas mais inesperadas do mundinho indie.
sábado, 31 de março de 2007
Descobertas tardias nº 2 - Camper Van Beethoven

Desde a metade dos anos 90, conhecia a banda Cracker, uma daquelas que apareceu na ressaca pós-grunge tocando rock tradicional com guitarrinhas levemente distorcidas, influências de folk e produção careta. Uma espécie de Hootie and the Blowfish um pouco mais alternativo, na verdade. Tiveram até um pequeno hit (Low), que chegou a tocar razoavelmente bem na MTV. Mas estavam longe de ser algo digno de destaque, apesar de ter um certo apelo na então terra de Bill Clinton.
Muitos anos depois, encontrei numa promoção de queima de encalhe vários cds de uma banda chamada Camper Van Beethoven. A princípio, adorei o nome da banda e a capa de seu álbum auto-intitulado. Resolvi levar alguns por curiosidade. E valeu demais a pena. Aí, fui descobrir que o líder do insosso Cracker, David Lowery, tocou essa banda durante a segunda metade da década de 80 e fui obrigado a revalorizar o cara... Prenunciando o crossover geral que marcaria a década seguinte, o CVB trabalhava sobre uma base folk caótica, com fragmentos de pós-punk, ska, psicodelia e new wave, com letras nonsense e ecos de coisas tão díspares como Velvet Underground, Love, Madness e Byrds. Uma espécie de early R.E.M. lo-fi, num nível de desencanação tão alto que ocultava a pretensão das fusões da banda, mas ainda assim capaz de forjar grandes canções como Take the Skinheads Bowling (já regravada pelos Manic Street Preachers), Wasted e Joe Stalin's Cadillac. Chegaram inclusive a gravar na íntegra
um dos clássicos do soft rock americano, Tusk, do Fleetwood Mac, dando roupagens inimaginadas aos clássicos de Stevie Nicks e companhia, com toques de ska, funk e punk distorcendo as composições originais. Enfim, uma descoberta e tanto... Sempre achei estranho que Lowery tenha produzido bandas como o Sparklehorse, mas após descobrir o CVB ficou tudo mais claro. Digamos que quem produziu a banda de Mark Linkous foi o cara do CVB e quem produziu Joan Osborne e Counting Crows foi o líder do Cracker. E tenho dito...
sexta-feira, 30 de março de 2007
Fever pitch
Existe coisa mais tola que o fanatismo por esportes? Ok, a prática deles, num contexto "politicamente correto" e tal, é mais do aceitável e recomendável, mas me refiro à torcida e culto desmedidos em torno dos mesmos. Nunca entendi as reais motivações que fazem com que certas pessoas encarem seus times e ídolos com fervor quase que religioso. Certas pessoas como eu...Me recordo de torcer pelo Corinthians desde os 3 anos de idade, sempre de maneira exagerada e apaixonada. Inclusive, nutro um grande carinho pelos plantéis que o Corinthians do saudoso Vicente Matheus manteve ao longo da década de 80. Comecei a acompanhar o futebol durante a ressaca pós-Democracia Corinthiana e não tive infelizmente o prazer de vislumbrar o timaço (dizem) de Mário Travaglini conquistar o bicampeonato paulista de 1982/3, não tendo conhecido em tempo real os clássicos passes de calcanhar, as declarações bombásticas e a técnica refinada do Doutor Sócrates, o vigor de Super-Zé Maria e do eterno moleque Wladimir nas laterais, a força e irreverência do pleonasticamente grande Casagrande, tampouco a classe do meia Zenon... Mas vi o fim de carreira de Biro-Biro pelo menos...
E é pensando em Biro-Biro que me vem à cabeça o fato de que gosto mesmo é de relembrar dos jogadores menos badalados que vi com o manto sagrado ao longo daquela época. Caras como Ezequiel, Wilson Mano, Edmar, João Paulo, todos considerados tecnicamente limitados, mas que suavam sangue por aquela camisa. Mas os ídolos maiores, símbolos do que representa o futebol pra mim, sempre serão o meia Neto e o goleiro Ronaldo. Fã que sou de Dieguito Maradona (o maior jogador que já vi atuar em toda minha vida), era natural que craques polêmicos como ambos ficasse pra sempre em minha memória. Desbocados, marrentos, até desleais em momentos de tensão, Neto
e Ronaldo honraram com o coração aquele símbolo, amavam aquela camisa e transmitiam isso pra quem quer fosse. Esse traço passional, de certa forma, atrapalhou a carreira de ambos, pois nunca tiveram clima para ostentar com a mesma gana outros estandartes, mas serviu para eternizá-los como ídolos maiores dos corinthianos da minha geração. Mesmo com todos os títulos conquistados posteriormente, nunca deixarei de lembrar com um sorrisão de orelha a orelha todos os momentos em que vi esses caras em campo, os aplaudi ou xinguei. Essa irracionalidade futebolística deveria me deixar envergonhado, por ser piegas, fútil, infantil e quase estúpida. Mas me enche de orgulho...
terça-feira, 27 de março de 2007
dream asleep in the sand with the ocean washing over
A morte precoce entre roqueiros é um típico fetiche que motiva idolatria, devoção, até gera verdadeiros cultos em torno de seus protagonistas. Desde que eles já sejam conhecidos, que fique bem claro... Algumas vezes, o que acontece é uma revalorização tardia de trabalhos não adequadamente apreciados à sua época, mas nesses casos o status máximo alcançado pelo cadáver é o de cult hero. Alguém se lembra de uma das músicas que rolam logo no início de Vanilla Sky, a desastrosa e didática adaptação americana para o filme mexicano Abra os ojos? É Last Goodbye, do álbum Grace (1994), de Jeff Buckley. Deve ter sido a máxima exposição que Buckley obteve, ainda que póstuma. Filho do trovador folk Tim Buckley, hoje injustamente esquecido, a carreira meteórica de Buckley filho (morto num afogamento no rio Mississipi aos 30 anos, em 1997) legou aos amantes da música o álbum acima citado. Intenso, lírico, musicalmente variado, Grace é um disco que merece ser descoberto em suas minúcias por todos. Indo desde a angústia contida de Mojo Pin à fúria zeppeliniana de Eternal Life, passando por versões fantasmagóricas à Van Morrison circa 1972 de Lilac Wine (canção imortalizada na interpretação da diva Nina Simone) e Hallelujah, do bardo Leonard Cohen, com passagens pelo inferno dos fins de relações turbulentas e do arrependimento (Last Goodbye e Lover, You Should've Come Over), culminando na busca pela redenção em Dream Brother. Não encontro palavras para descrever a sensação trazida por Grace. Ouçam e tirem suas próprias conclusões... Chris Martin ouviu, diluiu e se tornou milionário.It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Lover, You Should've Come Over
E o mundo dá à luz um novo paga-pau de Stevie Wonder
Ao ouvir o primeiro trabalho de James Morrison, intitulado Undiscovered, a primeira sensação que se tem é a de estamos diante de um novo Jamiroquai, com tudo de ruim que isso possa trazer à tona. A faixa de abertura (Under the Influence - título sugestivo...) caberia bem no "clássico" da banda inglesa, Travelling Without Moving. Passada a má impressão inicial, temos um álbum até que palatável, lembrando algumas vezes os melhores momentos do Maroon 5 (Undiscovered, You Give Something), noutras Jamie Cullum e John Mayer(Wonderful World, Call the Police), mas sempre bebendo no groove de Stevie Wonder, com algo de Curtis Mayfield e Sly Stone (mas apenas as coisas mais acessíveis). Não, não é nada que chegue perto dos mestres, mas está vários pontos acima dos diluidores aqui citados, e de muitos outros que surgiram nas últimas décadas, à medida que os trabalhos originais e legais de Wonder iam escasseando. Enquanto a negritude se esbalda no hip hop, sempre haverá alguns branquelos dispostos a ressuscitar esse soul funk setentista que tanta falta nos faz... No fim das contas, o álbum acaba sendo uma boa opção de cabeceira (literalmente), para deixar ao lado de Norah Jones ou Morcheeba, caso não seja possível que se rolem alternativas melhores, como Portishead, Air ou Massive Attack no momento do bote. Melhor que Djavan e Jack Johnson o cara é, com toda a certeza mais que absoluta desse mundo...
quinta-feira, 15 de março de 2007
Who's gonna watch the Watchmen?

Em primeiro lugar, quaisquer elogios que possam ser tecidos a Watchmen, um dos trabalhos que definiu o conceito das modernas histórias em quadrinhos nos anos 80, serão possivelmente insuficientes diante da grandeza da obra de Alan Moore e Dave Gibbons. Isto é lugar-comum, quase unanimidade na comunidade de quadrinhófilos. Resolvi escrever algumas linhas apenas devido à iminência da adaptação da série para o cinema. Algumas adaptações desse gênero têm sido bem sucedidas, como foram os casos de Sin City, X-Men e Spider-Man, porém receio que Watchmen tenderá ao fracasso assim como ocorreu com V for Vendetta. Construído em torno de um enredo extremamente bem engendrado e fantasioso, com diversas citações e "homenagens" aos quadrinhos clássicos de super-heróis, creio que Watchmen é essencialmente um gibi. O visual suntuoso, em parte kitsch, aliado às nuances na caracterização dos personagens e aos pequenos interlúdios na história não me parecem caber bem na telona. Ambientada na metade da década de 80 de um mundo distópico, onde o sonho das Eras de Ouro e Prata dos quadrinhos se tornara um pesadelo corporativo, o cast é composto por personagens bem elaborados, com profundidade poucas vezes vista nas HQ's, mas pontuados por características essencialmente quadrinhísticas, como caricaturas assustadoras ou risíveis de nossos heróis favoritos. Assim sendo, tais nuances e detalhes certamente se perderão numa eventual adaptação, que ser tornará apenas uma aventura com personagens mascarados em meio a uma trama rocambolesca, com total perda da metalinguagem tão cara ao texto de Moore. Será o típico filme digno do comentário "não vi e não gostei". Para fanáticos, simplesmente uma heresia...
Revalorizando os Gorillaz
Receio ter exagerado um pouco nos elogios ao The Good, the Bad and the Queen. Não que o disco não seja ótimo, mas acabei subvalorizando um álbum que considerei excelente desde a primeira audição: Demon Days, dos Gorillaz. O que no primeiro álbum era diversão desenfreada, pretensiosa e desfocada (e ainda assim com muitos momentos brilhantes) foi devidamente enquadrado por Danger Mouse neste segundo álbum. Talvez o que tenha me chamado a atenção no TGTBTQ tenha sido a musicalidade um pouco mais orgânica como banda, mas Danger Mouse já havia mostrado a que veio em Demon Days, conseguindo concentrar o talento de Damon Albarn em um álbum consistente.
sábado, 10 de março de 2007
Simples, singelo... e maravilhoso
"Corno music" pode ser legal...
(...) o amor é a força que move o rock and roll. (...) Falo de rock de verdade e amores proibidos, torturantes. Sofrimento e dúvida.
Álvaro Pereira Jr. (Escuta aqui - 09/06/1997)
É difícil acrescentar algo à epígrafe acima. A idéia não era original
mas, de qualquer forma, ficou bem expressa. A transcrevi a propósito de um dos possíveis subtópicos a ser pensados a partir desse papel do amor no rock'n'roll. Mais do que a dor da não-correspondência, a angústia pela perda iminente ou consumada de algo outrora seguro é também motor para grandes canções e álbuns temáticos, e também para obras tristemente ululantes e monótonas. Pensei sobre isso ao comparar dois álbuns compostos sob tal égide lançados há não muito: Sea Change, de Beck (2003) e 13, do Blur (1999). A crítica praticamente definiu o primeiro como exemplo bem-sucedido e o segundo como fracasso retumbante.
Minha tendência natural me levava a discordar de tal opinião. Acreditava que 13 tinha uma intensidade e uma sinceridade de intenções que impediriam objeções tão contundentes quanto as que foram publicadas à época. Relembrando, o álbum foi composto e lançado logo após o término do relacionamento entre Damon Albarn e Justine Frischmann, então líder do Elastica. Relacionamento que, por sinal, foi abordado com toda o estardalhaço possível pela mídia britânica, com acusações de adultério e indiferença para ambos os lados, mas que, aparentemente, trouxe um grande impacto para Albarn. O álbum é praticamente direcionado a Justine em quase toda sua totalidade, com acusações e demonstrações claras de ressentimento e dor permeando canções como Tender, No Distance Left to Run e 1992, além de declarações abertas de desespero e falta de perspectivas como Trimm Trabb e Mellow Song. É inegável que seja um documento um tanto cru da fase por que Albarn passava, porém, analisando o álbum mais friamente e com o devido distanciamento percebe-se que sua melancolia e verborragia ora irada, ora desesperada foram realmente exageradas e melodramáticas demais. Isso leva a pensar que, na verdade, o real motivo de minha indignação com as opiniões da crítica à época era muito mais pessoal do que propriamente estético. De qualquer forma, com toda suas imperfeições e excessos, 13 tem suas qualidades. E a sinceridade é a principal delas.
Já Sea Change, composto por Beck após o término de um longo relacionamento, manteve sua habitual alternância entre álbuns de temática festeira, colagens e som caleidoscópico e discos de folk mais tradicional. Canções acústicas, suaves e reflexivas, com um pé na psicodelia pastoril de Donovan, Jefferson Airplane e Love e outro nos sons mais taciturnos de trovadores como Nick Drake e Van Morrison. Mais focado e climático que as tentativas folk anteriores de Beck, Sea Change é um retrato mais realista e com mais pés-no-chão que 13, possivelmente não menos doloroso porém. Canções como Lonesome Tears, The Golden Age, Lost Cause e Guess I'm Doing Fine são dilacerantes e expõem de forma mais elaborada as agruras da situação em questão. Porém, há espaço para alguma esperança em Sunday Sun e Side of the Road. Talvez esse seja o ponto de ruptura em relação ao álbum do Blur. Parece haver uma certa maturidade na maneira como a realidade é encarada.
Enfim, corações partidos sempre moverão a música pop e, mais especificamente, o rock. E a maneira como tais corações reagirão frente a quem os partiu é perfeitamente variável, como acontece em nossas próprias vidas. Por isso mesmo, sempre haverá alguém disposto a ouvir e, infeliz ou oportunamente, se identificar com essas obras. And life goes on...
Álvaro Pereira Jr. (Escuta aqui - 09/06/1997)
É difícil acrescentar algo à epígrafe acima. A idéia não era original
mas, de qualquer forma, ficou bem expressa. A transcrevi a propósito de um dos possíveis subtópicos a ser pensados a partir desse papel do amor no rock'n'roll. Mais do que a dor da não-correspondência, a angústia pela perda iminente ou consumada de algo outrora seguro é também motor para grandes canções e álbuns temáticos, e também para obras tristemente ululantes e monótonas. Pensei sobre isso ao comparar dois álbuns compostos sob tal égide lançados há não muito: Sea Change, de Beck (2003) e 13, do Blur (1999). A crítica praticamente definiu o primeiro como exemplo bem-sucedido e o segundo como fracasso retumbante.Minha tendência natural me levava a discordar de tal opinião. Acreditava que 13 tinha uma intensidade e uma sinceridade de intenções que impediriam objeções tão contundentes quanto as que foram publicadas à época. Relembrando, o álbum foi composto e lançado logo após o término do relacionamento entre Damon Albarn e Justine Frischmann, então líder do Elastica. Relacionamento que, por sinal, foi abordado com toda o estardalhaço possível pela mídia britânica, com acusações de adultério e indiferença para ambos os lados, mas que, aparentemente, trouxe um grande impacto para Albarn. O álbum é praticamente direcionado a Justine em quase toda sua totalidade, com acusações e demonstrações claras de ressentimento e dor permeando canções como Tender, No Distance Left to Run e 1992, além de declarações abertas de desespero e falta de perspectivas como Trimm Trabb e Mellow Song. É inegável que seja um documento um tanto cru da fase por que Albarn passava, porém, analisando o álbum mais friamente e com o devido distanciamento percebe-se que sua melancolia e verborragia ora irada, ora desesperada foram realmente exageradas e melodramáticas demais. Isso leva a pensar que, na verdade, o real motivo de minha indignação com as opiniões da crítica à época era muito mais pessoal do que propriamente estético. De qualquer forma, com toda suas imperfeições e excessos, 13 tem suas qualidades. E a sinceridade é a principal delas.
Já Sea Change, composto por Beck após o término de um longo relacionamento, manteve sua habitual alternância entre álbuns de temática festeira, colagens e som caleidoscópico e discos de folk mais tradicional. Canções acústicas, suaves e reflexivas, com um pé na psicodelia pastoril de Donovan, Jefferson Airplane e Love e outro nos sons mais taciturnos de trovadores como Nick Drake e Van Morrison. Mais focado e climático que as tentativas folk anteriores de Beck, Sea Change é um retrato mais realista e com mais pés-no-chão que 13, possivelmente não menos doloroso porém. Canções como Lonesome Tears, The Golden Age, Lost Cause e Guess I'm Doing Fine são dilacerantes e expõem de forma mais elaborada as agruras da situação em questão. Porém, há espaço para alguma esperança em Sunday Sun e Side of the Road. Talvez esse seja o ponto de ruptura em relação ao álbum do Blur. Parece haver uma certa maturidade na maneira como a realidade é encarada.

Enfim, corações partidos sempre moverão a música pop e, mais especificamente, o rock. E a maneira como tais corações reagirão frente a quem os partiu é perfeitamente variável, como acontece em nossas próprias vidas. Por isso mesmo, sempre haverá alguém disposto a ouvir e, infeliz ou oportunamente, se identificar com essas obras. And life goes on...
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