
É sabido que, de forma bem reducionista, o rock'n'roll nasceu do cruzamento entre os lamentos negros do blues e a dinâmica redneck do country. Originalmente, as influências de
country&western, honky tonk e
hillbilly foram usadas para amenizar e tornar mais tolerável a então chamada
"race music" para ouvidinhos
wasp. Vez por outra, a dosagem destes elementos na mistura pendeu mais para um lado, e nesse tópico o interesse recai nos estilos calcados no lado caipira da coisa.
Country rock, alternative country, cowpunk, Americana... Vários rótulos já foram utilizados para definir praticantes dessa tendência, mas pela própria natureza mutante e errática do rock nem sempre são facilmente aplicáveis. Na década de 50, seria impossível aplicar essas definições, pois soariam redundantes. Até que ponto Elvis Presley ou Johnny Cash são country com influências roqueiras ou roqueiros com um pé na roça? A partir dos 60s, tornou-se mais fácil delimitar tais movimentos, uma vez que bandas originalmente roqueiras voltavam-se para as raízes após um início mais, digamos, urbano.

Na primeira metade da década de 60, os Beatles gravaram
I'll Cry Instead e
Baby's in Black no álbum
Beatles for Sale (1964). Em 1966, os Rolling Stones lançaram
High and Dry e o Buffalo Springfield
Go and Say Goodbye. Bob Dylan, após eletrificar seu

som pouco antes para horror dos puristas, deu meia-volta, e, com o clássico
Blonde on Blonde, gravou em Nashville várias canções com sotaque country. Mas o maior impulso veio mesmo dos Byrds. Desde o início uma banda de rock psicodélico com inflexão folk, a entrada de um jovem músico californiano chamado Gram Parsons mudou radicalmente a visão musical do grupo, introduzindo toda uma temática e, por que não?, uma alma country em seu som. Proveniente da International Submarine Band (primeiro grupo digno de nota a praticar exclusivamente o country rock), Parsons definia suas composições como "
Cosmic American Music". O álbum
Sweetheart of the Rodeo (1968) teve tamanho impacto sobre os Byrds que, mesmo após a saída de Parsons, todos os trabalhos subsequentes da banda e de seus membros, tiveram fortes ecos dessa veia rural. Após sair dos Byrds, Parsons expandiu os limites do estilo com
The Flying Burrito Brothers e em carreira solo. Pode-se dizer que os álbuns
The Gilded Palace of Sin (FBB, 1969) e
G.P. (solo, 1973) são os pontos mais altos, com perene influência e qualidade indelével. A falta de sucesso massivo de público, associada a um comportamento junkie levou o genial Parsons à morte precoce em 1973, aos 26 anos.
Curiosamente, o estilo atingiu grande sucesso comercial na década de 70, em versão menos rústica, mais apropriada para as rádios. Emmylou Harris, Doobie Brothers (em sua primeira formação), Linda Ronstadt e, principalmente, os Eagles lograram grande êxito (e vendagens) com um som mais polido, de uma melancolia menos palpável e facilmente palatável para um público normalmente conservador. É importante se lembrar também do
swamp rock de

Creedence Clearwater Revival e do
folk rock de Neil Young, The Band e Crosby, Stills, Nash & Young, todos com grande dose de country em sua formatação. O Grateful Dead, mais associado ao blues rock viajandão do começo de carreira e suas experiências em happenings promovidos pelo doidão Ken Kesey, também tiveram uma queda pelo country rock, lançandos dois de seus melhores

álbuns, inclusive:
Workingman's Dead e
American Beauty, ambos de 1970.
Paralelamente a isso, algumas bandas se voltaram para uma interpretação mais pesada do estilo, ligadas a guitarras mais bluesy, ou mesmo hard rock, levando ao southern rock. Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd,

especialmente, legaram grandes obras nesse estilo, especialmente os álbuns
At Filmore East (1971) e
Pronounced Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd (1973), respectivamente.
Neil Young, com seu álbum
Zuma (1975), lançou as bases para o que seria chamado de

cowpunk. No Brasil, havia o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabira, interpretando o sotaque country nacional através de guarânias e modas de viola em um formato roqueiro.
Na década de 80, o country rock era considerado primitivo e pouco dançante demais para

plateias cada vez mais voltadas para os sons pasteurizados e superproduzidos do rock de arena e do tecnopop. Houve alguns bons discos de grupos como Blue Rodeo e artistas como Steve Earle, mas sem o mesmo brilho de outrora. Grupos independentes de filiação punk como Replacements e Meat Puppets resgataram a essência
cowpunk de Neil Young e lançaram em 1984 seus clássicos
Let It Be e
II, respectivamente, ambos para uma audiência bastante restrita.
Na década de 90, com a explosão alternativa proporcionada por Nevermind, do Nirvana, houve a oportunidade para que essa estética atingisse novamente um público maior e tivesse mais visibilidade junto à mídia. Bandas como Uncle Tupelo e Jayhawks lançaram as sementes para o

que foi chamado de alternative country, ou simplesmente alt country. O estilo tinha menos amarras que seus predessores, até pela característica caleidoscópica do pop dos 90s. Wilco e Son Volt (ambas originárias das cinzas do Uncle Tupelo), Josh Rouse, Drive-By Truckers e Neko Case são alguns dos destaques dessa safra, cada qual com suas peculiaridades.
Hipsters inclassificáveis como Beck Hansen e até algumas bandas que então frequentavam o
hit parade, como Soul Asylum e Lemonheads, deixaram seu lado capiau vir à tona. O Wilco,

particularmente, tornou-se uma banda com grande séquito de seguidores, lançando trabalhos que variavam desde country rock tradicional (
Being There, 1996) até rock experimental (
A Ghost is
Born, 2004) e power pop (
Summerteeth, 1999). Já Josh Rouse aproximou-se da soul music e do soft rock para lançar alguns dos álbuns conceituais mais interessantes dos
naughties, especificamente
1972 (2003) e
Nashville (2005). Até mesmo escroques do infame
nu metal como Kid Rock e Uncle Kracker tentaram injetar algum

sabor
hillbilly a seu som calcado em batidas eletrônicas, guitarras saturadas e vocais hip hop. E há ainda os Supersuckers, que são parte da primeira leva do grunge de Seattle (mas que eram de Tucson, Arizona), que, em meio a trabalhos de puro esporro punk/hardcore/metal, encontram espaço para deixar aflorar o som típico de sua terra de origem, tendo inclusive gravado com Willie Nelson, a lenda viva. Merece menção à parte Ryan Adams. Egresso da promissora banda Whiskeytown, Adams é um dos profícuos cantores de seu tempo, lançando praticamente um ou mais álbuns por ano. Evidentemente, nem sempre acerta a mão, mas quando isso ocorre saem maravilhas como
Gold (2001) e
29 (2005), belos e tristes em sua visão estilizada e pós-moderna da música country.
Com sua beleza singela, associada à melancolia e vivacidade típicas da temática rural, o
country&western é e sempre será sempre bem-vindo no contexto roqueiro, como que criando um idílio utopicamente bucólico em meio ao caos urbano. E sempre é válido lembrar: eles usavam botinas muito antes dos punks.
Beatles - I'll cry insteadByrds - Hickory WindFlying Burrito Brothers - Sin CityGram Parsons - Brass ButtonsGram Parsons - SheGram Parsons & Emmylou Harris - Love HurtsGrateful Dead - Box of RainAllman Brothers Band - Whipping PostLynyrd Skynyrd - FreebirdNeil Young - Don't cry no tearsSá, Rodrix e Guarabira - Mestre JonasReplacements - I Will DareMeat Puppets - Lake of FireUncle Tupelo - Graveyard ShiftJayhawks - Waiting for the SunWilco - Red Eyed and BlueJosh Rouse - Quiet TownSupersuckers - Dead on the Water