terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um obra-prima artesanal e oculta de música negra


Tortuosos são os caminhos da música pop. Talento ou qualidade não são suficientes para catapultar ninguém ao estrelato, mas apenas marketing pessoal, aparato monstruoso de promoção e exposição tampouco são garantias de sucesso. Quando faz-se uma opção por trabalhar da forma mais low profile possível então, as chances de despontar para o anonimato são ainda maiores.

Provavelmente, poucos se lembram de Cody ChesnuTT. A referência mais simples é a música "The Seed 2.0", de sua autoria, que virou clipe de rotação relativamente alta na versão do coletivo hip-hop The Roots em 2003, com participação do próprio ChesnuTT inclusive. Pouca coisa ainda assim, não?

Pois após ouvir seu único álbum completo, The Headphone Masterpiece, estou desnorteado. Trata-se de um disco duplo lançado em 2002, com 36 faixas gravadas de forma artesanal, literalmente caseira. ChesnuTT toca todos os instrumentos, programações e canta tudo no álbum. O resultado é embasbacante. Com cara de colcha de retalhos, há fragmentos de soul clássico, guitarras de classic rock, melodias de soft rock e pop setentista, uma vibe largadona meio jamaicana, vocais em falsete que orgulhariam Curtis Mayfield e causariam desconforto num certo baixinho de Minneapolis. E tanto ecletismo, que poderia render uma mistura indigesta ou um som burocrático na linha dos piores momentos de Ben Harper, funciona bem por aqui. As composições são tão boas que dispensam uma produção mais esmerada. E o esquema caseiro contribui para o clima relaxado tão apropriado para algo gravado nessas condições. ChesnuTT descompromissadamente flerta com vários estilos e dá à luz preciosidades como as acústicas Enough of Nothing, She's Still Here e Daddy's Baby, os baladões soul The Make Up, Eric Burdon e 6 Seconds, os rocks básicos The Seed, Upstarts in a Blowout e If We Don't Disagree. Eis aí uma das grandes virtudes de um trabalho tão longo: a imprevisibilidade impera a cada faixa, de repente salta-se de uma paisagem folk bucólica para um racha-assoalho eletrônico, num trabalho aparentemente pouco planejado. Acostumados que estamos a intérpretes comportados como John Legend, alguém como Cody ChesnuTT quebra com vigor as convenções a que a black music mainstream encontra-se confinada nos dias de hoje. Fosse Beck autenticamente negro e espontaneamente ousado e talvez fosse assim que ele soasse. Um verdadeiro tesouro que cresce a cada audição e que não só merece, como tem que sair da obscuridade.

domingo, 22 de agosto de 2010

O Bruxo Preterido

Mais uma vez Paulo Coelho faz uso de seu dom místico de transformar vocábulos em lixo. Nenhuma novidade nisto, e nenhuma crítica particular àqueles que se lançarem avidamente à leitura de suas platitudes e obviedades pseudometafísicas. O objeto de minha indignação é o fato de seu último livro se chamar "O Aleph", tornando-se assim homônimo da coletânea de contos do mestre argentino Jorge Luis Borges (Obs.: Aleph é o nome da primeira letra do alfabeto hebraico). Evidentemente, existem dezenas de livros com nomes iguais, mas neste caso torna-se quase jocosa e indigna a semelhança. Enquanto Borges era um artesão de escrita sucinta, rebuscada e enciclopédica até a medida adequada, entrecortada por subtextos e significados ocultos, sempre com um caráter transcendental sem se utilizar de misticismo de araque, Coelho representa exatamente seu oposto: prolixo, paupérrimo no aspecto linguístico, redundante e apelativo de forma desavergonhada, aproximando sua prosa vulgar dos chavões mais torpes da chamada "literatura" de autoajuda. O Aleph, representação do infinito indefínivel, indecifrável e inconcebível diante de nossa pequenez segundo o conto de Borges, não merecia essa ignomínia. Coelho deveria batizar seu livro como "O Tav", última letra do alfabeto hebraico, assim marcando de forma clara sua distância intelectual e artistica do gênio portenho.

Quando o rock voltou à roça

É sabido que, de forma bem reducionista, o rock'n'roll nasceu do cruzamento entre os lamentos negros do blues e a dinâmica redneck do country. Originalmente, as influências de country&western, honky tonk e hillbilly foram usadas para amenizar e tornar mais tolerável a então chamada "race music" para ouvidinhos wasp. Vez por outra, a dosagem destes elementos na mistura pendeu mais para um lado, e nesse tópico o interesse recai nos estilos calcados no lado caipira da coisa.
Country rock, alternative country, cowpunk, Americana... Vários rótulos já foram utilizados para definir praticantes dessa tendência, mas pela própria natureza mutante e errática do rock nem sempre são facilmente aplicáveis. Na década de 50, seria impossível aplicar essas definições, pois soariam redundantes. Até que ponto Elvis Presley ou Johnny Cash são country com influências roqueiras ou roqueiros com um pé na roça? A partir dos 60s, tornou-se mais fácil delimitar tais movimentos, uma vez que bandas originalmente roqueiras voltavam-se para as raízes após um início mais, digamos, urbano.
Na primeira metade da década de 60, os Beatles gravaram I'll Cry Instead e Baby's in Black no álbum Beatles for Sale (1964). Em 1966, os Rolling Stones lançaram High and Dry e o Buffalo Springfield Go and Say Goodbye. Bob Dylan, após eletrificar seu som pouco antes para horror dos puristas, deu meia-volta, e, com o clássico Blonde on Blonde, gravou em Nashville várias canções com sotaque country. Mas o maior impulso veio mesmo dos Byrds. Desde o início uma banda de rock psicodélico com inflexão folk, a entrada de um jovem músico californiano chamado Gram Parsons mudou radicalmente a visão musical do grupo, introduzindo toda uma temática e, por que não?, uma alma country em seu som. Proveniente da International Submarine Band (primeiro grupo digno de nota a praticar exclusivamente o country rock), Parsons definia suas composições como "Cosmic American Music". O álbum Sweetheart of the Rodeo (1968) teve tamanho impacto sobre os Byrds que, mesmo após a saída de Parsons, todos os trabalhos subsequentes da banda e de seus membros, tiveram fortes ecos dessa veia rural. Após sair dos Byrds, Parsons expandiu os limites do estilo com The Flying Burrito Brothers e em carreira solo. Pode-se dizer que os álbuns The Gilded Palace of Sin (FBB, 1969) e G.P. (solo, 1973) são os pontos mais altos, com perene influência e qualidade indelével. A falta de sucesso massivo de público, associada a um comportamento junkie levou o genial Parsons à morte precoce em 1973, aos 26 anos.
Curiosamente, o estilo atingiu grande sucesso comercial na década de 70, em versão menos rústica, mais apropriada para as rádios. Emmylou Harris, Doobie Brothers (em sua primeira formação), Linda Ronstadt e, principalmente, os Eagles lograram grande êxito (e vendagens) com um som mais polido, de uma melancolia menos palpável e facilmente palatável para um público normalmente conservador. É importante se lembrar também do swamp rock de Creedence Clearwater Revival e do folk rock de Neil Young, The Band e Crosby, Stills, Nash & Young, todos com grande dose de country em sua formatação. O Grateful Dead, mais associado ao blues rock viajandão do começo de carreira e suas experiências em happenings promovidos pelo doidão Ken Kesey, também tiveram uma queda pelo country rock, lançandos dois de seus melhores álbuns, inclusive: Workingman's Dead e American Beauty, ambos de 1970.
Paralelamente a isso, algumas bandas se voltaram para uma interpretação mais pesada do estilo, ligadas a guitarras mais bluesy, ou mesmo hard rock, levando ao southern rock. Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, especialmente, legaram grandes obras nesse estilo, especialmente os álbuns At Filmore East (1971) e Pronounced Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd (1973), respectivamente.
Neil Young, com seu álbum Zuma (1975), lançou as bases para o que seria chamado de cowpunk. No Brasil, havia o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabira, interpretando o sotaque country nacional através de guarânias e modas de viola em um formato roqueiro.
Na década de 80, o country rock era considerado primitivo e pouco dançante demais para plateias cada vez mais voltadas para os sons pasteurizados e superproduzidos do rock de arena e do tecnopop. Houve alguns bons discos de grupos como Blue Rodeo e artistas como Steve Earle, mas sem o mesmo brilho de outrora. Grupos independentes de filiação punk como Replacements e Meat Puppets resgataram a essência cowpunk de Neil Young e lançaram em 1984 seus clássicos Let It Be e II, respectivamente, ambos para uma audiência bastante restrita.
Na década de 90, com a explosão alternativa proporcionada por Nevermind, do Nirvana, houve a oportunidade para que essa estética atingisse novamente um público maior e tivesse mais visibilidade junto à mídia. Bandas como Uncle Tupelo e Jayhawks lançaram as sementes para o que foi chamado de alternative country, ou simplesmente alt country. O estilo tinha menos amarras que seus predessores, até pela característica caleidoscópica do pop dos 90s. Wilco e Son Volt (ambas originárias das cinzas do Uncle Tupelo), Josh Rouse, Drive-By Truckers e Neko Case são alguns dos destaques dessa safra, cada qual com suas peculiaridades. Hipsters inclassificáveis como Beck Hansen e até algumas bandas que então frequentavam o hit parade, como Soul Asylum e Lemonheads, deixaram seu lado capiau vir à tona. O Wilco, particularmente, tornou-se uma banda com grande séquito de seguidores, lançando trabalhos que variavam desde country rock tradicional (Being There, 1996) até rock experimental (A Ghost is Born, 2004) e power pop (Summerteeth, 1999). Já Josh Rouse aproximou-se da soul music e do soft rock para lançar alguns dos álbuns conceituais mais interessantes dos naughties, especificamente 1972 (2003) e Nashville (2005). Até mesmo escroques do infame nu metal como Kid Rock e Uncle Kracker tentaram injetar algum sabor hillbilly a seu som calcado em batidas eletrônicas, guitarras saturadas e vocais hip hop. E há ainda os Supersuckers, que são parte da primeira leva do grunge de Seattle (mas que eram de Tucson, Arizona), que, em meio a trabalhos de puro esporro punk/hardcore/metal, encontram espaço para deixar aflorar o som típico de sua terra de origem, tendo inclusive gravado com Willie Nelson, a lenda viva. Merece menção à parte Ryan Adams. Egresso da promissora banda Whiskeytown, Adams é um dos profícuos cantores de seu tempo, lançando praticamente um ou mais álbuns por ano. Evidentemente, nem sempre acerta a mão, mas quando isso ocorre saem maravilhas como Gold (2001) e 29 (2005), belos e tristes em sua visão estilizada e pós-moderna da música country.
Com sua beleza singela, associada à melancolia e vivacidade típicas da temática rural, o country&western é e sempre será sempre bem-vindo no contexto roqueiro, como que criando um idílio utopicamente bucólico em meio ao caos urbano. E sempre é válido lembrar: eles usavam botinas muito antes dos punks.

Beatles - I'll cry instead
Byrds - Hickory Wind
Flying Burrito Brothers - Sin City
Gram Parsons - Brass Buttons
Gram Parsons - She
Gram Parsons & Emmylou Harris - Love Hurts
Grateful Dead - Box of Rain
Allman Brothers Band - Whipping Post
Lynyrd Skynyrd - Freebird
Neil Young - Don't cry no tears
Sá, Rodrix e Guarabira - Mestre Jonas
Replacements - I Will Dare
Meat Puppets - Lake of Fire
Uncle Tupelo - Graveyard Shift
Jayhawks - Waiting for the Sun
Wilco - Red Eyed and Blue
Josh Rouse - Quiet Town
Supersuckers - Dead on the Water

Joss Stone dá meia volta e se dá bem

Quando surgiu no showbizz em 2003, com apenas 16 anos, Joss Stone foi imediatamente notada e aclamada pelo poder de sua voz e pelo resgate de um soul com influências bluesísticas bastante orgânico, sem samplers ou efeitos eletrônicos em profusão, diferindo muito neste aspecto do r&b que dominava as paradas. Além disso, é claro, o contraste entre seu vozeirão grave e negro com sua pele alvíssima também chamava a atenção. Em seu terceiro álbum, Introducing Joss Stone, provavelmente influenciada por estratégias de marketing mal engendradas e desejo de atingir um público maior (e menos seletivo, provavelmente) aderiu à parafernália eletrônica e aos macetes do tal r&b (ou urban). Com isso, tornou-se simplesmente mais uma cantora (com mais potência vocal e técnica, sim) em meio a uma multidão, perdendo boa parte do brilho. Pois bem, em seu último álbum (Colour me Free), a pretensa diva voltou a seus bons dias. Canções conduzidas por linhas de guitarra e órgãos analógicos no melhor estilo Motown/Stax, backing vocals com inflexão gospel e uma cozinha completamente humana. Fazendo o que sabe, não houve erro, e abundaram boas músicas. Free Me lembra o lado mais bubblegum da Motown (o riff de guitarra é puro Jackson 5), Big 'Ol Game (com o mestre do neo-soul Raphael Saadiq) e Parallel Lines (com Jeff Beck) têm um groove orgânico e pesado típico do som que os Bar-Kays faziam para a Stax. O álbum perde parte de seu fôlego no quarto final, mas ainda assim é um grande alento frente à decepção provocada pelo disco anterior.

Free Me
Parallel Lines
Big 'Ol Game

sábado, 21 de agosto de 2010

Belezinhas bem escondidas

Algumas pinceladas sobre discos semi-obscuros garimpados a preços módicos pela internet recentemente, mas que merecem ser ouvidos...

Eggman - First Fruits
Os Boo Radleys nunca chegaram perto do sucesso de público, até por que eram parte da geração espremida entre o pós-punk passivo-agressivo de Smiths e Jesus & Mary Chain e o britpop populista de Oasis e congêneres. Sim, eram shoegazers, tinham carisma nulo e eram chegados a um rock com guitarras fluidas, vocais etéreos e muitos efeitos de estúdio. Eggman foi um projeto-solo de seu vocalista, Sice, onde, meio que fazendo o caminho inverso dos projetos-solo, tudo era mais fácil e menos experimental que na banda de origem. Maneirismos shoegazers filtrados por métodos de composição mais clássicos, com um pé no Fab Four, num álbum tão legal de ser ouvido quanto difícil de ser encontrado.

Eggman - First Fruits

The A-Sides - Silver Storms
Uma banda chegada a um bom pop clássico de fácil assimilação, com vocais que lembram uma versão mais contida e intimista de Ian McCulloch (Echo and the Bunnymen) e linhas melódicas vagamente próximas dos momentos mais sublimes de Walkmen ou mesmo do Coldplay em início de carreira, sempre com ecos de Zombies, Beatles e Beach Boys. O álbum começa num tom radiante, mas evolui para um lado mais sombrio e melancólico em sua segunda metade, mas a qualidade das composições se mantém sempre em alto nível.

Cinematic


Mexico 70 - Imperial Comet Hour
Uma banda com um nome como "Mexico 70" provoca curiosidade imediatamente. Mas seu som passa longe dos mariachis da terra de Chavez e Seu Madruga. Trata-se da banda de Mick Bund, que fez parte da finada cult band Felt. O som tem um parentesco bem distante com a banda matriz, especialmente nas influências de Byrds e outros bichos psicodélicos dos 60's. Mas, no lugar do clima introspectivo e francamente intimista do Felt, aqui temos um som mais ensolarado e direto, que lembra um pouco o lado mais pop de Prefab Sprout e Aztec Camera e dos primeiros trabalhos do R.E.M. E, a propósito do nome da banda, há uma música chamada Best & Hurst, que homenageia George Best (irlandês considerado um dos melhores atacantes da história do Manchester United) e Geoff Hurst (atacante do West Ham e único jogador da história a anotar 3 gols em uma final de Copa do Mundo, a de 1966).

Mexico 70 no myspace