sexta-feira, 25 de junho de 2010

Meus discos irrelevantes favoritos (Oh Sweet Nuthin')

Todo ano saem listas e mais listas de "melhores álbuns de todos os tempos", "melhores discos da década" etc etc etc... Mas, previsivelmente, sempre existem aqueles 100 discos que representam a intersecção de todas as listas, obras que beiram a absoluta unanimidade. E muitas vezes com razão... Afinal, quem seria maluco o suficiente para desqualificar trabalhos como Sgt Pepper's, Pet Sounds, Exile on Main Street, Kind of Blue ou What's Going On??? Mas sempre há um porém. E aqueles álbuns que todos nós sempre insistimos em considerar o suprassumo da música popular do século, mas que são ignorados solenemente por praticamente todo o restante dos habitantes do planeta? São obras que, se não são achincalhadas pela crítica, geralmente recebem notas entre 7,5 e 9 quando são lançadas, possuem um certo séquito de admiradores, mas sequer resvalam no imaginário coletivo da maioria até mesmo daqueles que acompanham atentamente o universo pop. Preferências idiossincráticas, segredos bem guardados, chame-os como quiser, mas todos têm seus álbuns irrelevantes preferidos. Este pobre escriba lista abaixo alguns que fazem parte de suas escolhas particulares.

Josh Rouse - 1972 (2003)
Quando lançou Dressed up like Nebraska (1998), Rouse foi bastante associado à onda de alternative country que se iniciou nos EUA após a implosão do grunge e ganhou certa força (entre o povo indie evidentemente) no começo dos naughties, na cola de um pessoal de responsa do quilate de Wilco, Ryan Adams e seu Whiskeytown, Jesse Harris, Jayhawks e Lambchop. Mas o som e a temática de Josh eram muito mais abrangentes. 1972 é uma referência ao ano de nascimento de seu autor, e sua música é executada como se tivesse sido composta e gravada na década em questão. Influências nítidas de soft rock setentista, soul music e pop clássico, homenageando explicitamente gente como Carole King (citada na faixa título), Marvin Gaye, Al Green, Fleetwood Mac, Nick Drake e James Taylor... E o principal, excelentes canções, com letras nostálgicas e reflexivas, evocando temas cotidianos e comuns a todos. Um álbum belo e consciente de sua desimportância, que traz à tona o lado mais inocente, doce e pretensamente feliz de uma década nem um pouco ingênua, tampouco menos amarga. Mas deixemos de lado a verossimilhança e apreciemos esse maravilhoso disco com cheiro de pipoca e gosto de bolo da mamãe, esperançoso quanto ao fim da Guerra Fria e ansioso pela aterrissagem em Marte. Que a realidade fique com os jornais e livros de história.

Veja o clipe de Love Vibration.

The Lemonheads - Come on Feel the Lemonheads (1992)
Quem ouve as histórias sobre o comportamento escroto e junkie de Evan Dando dificilmente entende a leveza e doçura de suas canções. Melodias ensolaradas, vocais suaves e letras inócuas ilustrando as idas e vindas de existências tão ocas quanto dissipativas e despropositadas. Mas isso não é demérito algum, afinal existe toda uma arte em tornar tão belo e assobiável o vazio.

Into Your Arms
It's About Time (apresentando Angelina Jolie ainda adolescente em 1993)
Being Around



The Makers - Rock Star God (2000)
Uma banda a princípio garageira por excelência, praticante de rock sujo, barulhento e cheio daquele groove sexual que arrebanha as almas das pobres criancinhas desde os primeiros discos dos Rolling Stones, que resolve abrir um pouco a palheta de cores de seu som. Com uma produção mais polida que o habitual, guitarras mais trabalhadas (um pouquinho mais, na verdade), timbres de glam rock, um pianinho aqui, um arranjo vagabundo de cordas ali e uma atitude ainda mais brejeira que a habitual, os malacos gravaram essa belezinha. Aqui temos desde New York Dolls com mais anfetaminas (Looking for a Supergirl, Better Way Down), Iggy Pop com os pés no chão (God's Playing Favorites), até baladinha com inflexão soul (Texture of a Girl). Uma aula de como uma banda pode evoluir sem se tornar "madura" ou simplesmente chata.

Give me Back Yesterday

Fountains of Wayne - Fountains of Wayne (1996)
Power pop é um termo com mais de uma conotação, podendo corresponder a coisas que vão desde o folk pop pastoril e beatlemaníaco do Big Star até a new wave intelectualizada do XTC, passando pelo hard rock redondo e engraçadinho do Cheap Trick e chegando até a miscelânea pós-tudo de Teenage Fanclub, Matthew Sweet, Weezer e Jellyfish. Mas poucos conseguiram condensar num único álbum tantas cançõezinhas melodiosas com cara de tarde ensolarada como essa dupla. Não ouse procurar originalidade nesse disco. O negócio aqui é diversão simples e sem compromisso algum com profundidade ou complexidade, com sabor sixty (She's Got a Problem), grunge (Radiation Vibe, Sick Day), folk (You Curse at Girls), new wave (Barbara H., Sink to the Bottom), entre outros quitutes pop de 3 minutos.

Radiation Vibe

Turbonegro - Apocalypse Dudes (1998)
Ganha um prêmio quem descobrir o que é colocado nos reservatórios de água da Suécia. A concentração de bandas legais que surge por lá merece algum tipo de estudo, ainda mais se levarmos em conta a variedade de estilos que elas praticam, variando desde pop clássico com um pé no brega (Cardigans, Komeda, Wannadies) até metal do mais extremo (nem vale a pena listar). Um estilo muito caro a nossos amigos escandinavos é uma espécie de crossover punk/garage/glam/hard rock, praticado por Hellacopters, Backyard Babies, Flaming Sideburns entre outros. Mas o Turbonegro merece menção à parte. Com um nome desses nem precisaria de muita música para chamar a atenção, mas esse álbum é uma pancada nos sentidos. Unindo esporro punk, riffs glam e hard, solos e ideologia metálica de butique com uma atitude brejeira e humor de mau gosto à toda prova, o Turbonegro cravou o mais adolescente de todos os discos de rock. Antissocial e tosco como convém, mas sem perder a (auto) ironia jamais, esse álbum mostra como algumas das coisas mais imbecis e sem requinte da juventude podem ser muito, mas muito divertidas quando encaradas com a devida (falta de) seriedade. Satanismo de araque, sexismo e misoginia de mentirinha, hedonismo geek num mix bem elaborado de Alice Cooper, Mötley Crüe, Sex Pistols, T.Rex, Black Flag e Motörhead.

Veja os clipes de Get It On e Are You Ready for Some Darkness?