quinta-feira, 26 de abril de 2007

Eu gosto de Rush...


Minha criação musical se deu quase que completamente nos anos 90. Sempre vale a pena lembrar qual eram os lemas do período histórico em questão, no rock pelo menos: atitude é o que importa, seja lá o que isso signifique. E, no fim das contas, atitude era apenas um item a mais na grande butique do rock'n'roll, vendida como uma espécie de atestado de credibilidade e autenticidade necessário pro imberbe que desenvolvesse algum pendor pelo gênero. Rock progressivo, música erudita, jazz, MPB, tudo que cheirasse a pretensão exagerada era naturalmente rejeitado sem maior crítica. Basicamente, a mídia musical ditava essa conduta. E os tais imberbes não tinham tanto poder de argumentação pra nadar contra a corrente. Felizmente, todos envelhecemos e temos oportunidade pra rever certos conceitos errôneos.

Conheci o Rush (como cerca de 90% dos brasileiros que conhecem a banda) através da abertura do seriado Profissão Perigo, do lendário McGyver, o mestre das gambiarras. A música que rolava era Tom Sawyer, um dos marcos da fase mais pop da banda. Bem, anos depois, com o furacão grunge e a cultura do metal mais extremo permeando o direcionamento que o gosto musical do adolescente médio deveria seguir, ficou difícil tentar conhecer mais a fundo a banda sem se considerar ridículo. Afinal, virtuosismo instrumental e letras bem elaboradas (mesmo que pedantes) não estavam na ordem da casa...

Mais uma década depois, sou obrigado a estender a mão à palmatória e admitir que sempre se tratou de uma puuuta banda. Seja imitando o Led Zeppelin ou fazendo uma versão mais hard do Police, ou mesmo em looongas viagens instrumentais beirando o progressivo, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart (John Rutsey no primeiro álbum) conseguiram construir uma obra grande com muitos pontos altos. E extremamente divertida também. E esse é o ponto... O preconceito cego que a crítica criada à base de pós-punk/new wave/punk desenvolveu impedia que certas coisas fossem observadas em sua plenitude. Se você considerasse The Spirit of Radio uma música legal, provavelmente você deveria estar com algum problema, algum tipo de retardo. Hoje, poder ler alguma crítica e simplesmente dizer "foda-se" me parece muito mais saudável.

Espero que na próxima vez em que eles passarem pelo Brasil, eu tenha a oportunidade de presenciar seu show. E espero que a lavagem cerebral proposta por certos setores desse moedor de carne chamado crítica não seja tão perene para todos que a conhecem.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Foxbase Alpha

Quando adquiri esse álbum, primeiro da banda inglesa Saint Etienne, conhecia apenas algumas faixas esparsas do grupo, mais especificamente Who do you think you are? e Like a Motorway, de trabalhos posteriores. À primeira vista, pirei com a capa retrô, mas quando botei o cd pra rolar, fiquei deslumbrado. Only Love Can Break your Heart, versão europop/house para uma canção quase esquecida de Neil Young desce redondo, desde a interpretação intensa (que não é de Sarah Cracknell, vocalista do grupo, mas de uma tal Moira Lambert) até o bom gosto na escolha dos beats e timbres. E é só o começo... No decorrer do álbum, continua a visita aos melhores momentos do pop e lounge dos 60's, com batidas atualizadas e dançantes, letras ora nostálgicas, ora sarcásticas, sempre entoadas de modo angelical, com interlúdios bem interessantes entre as faixas, citando transmissões de rádio, jogos de futebol, britânicas até a medula. Spring fascina imediatamente com sua melodia envolvente e letra ingênua (It's only springtime, oh, you're too young to say you're through with love / It's only springtime, and I'll be different, I'll be different, I swear to you ). A linha de baixo de Nothing Can Stop Us Now mostra como o Deee-Lite poderia ter sido uma banda mais legal, caso tivesse mais finesse e senso de ridículo. E finalmente chegamos à coda London Belongs to Me, ode relaxante e fofinha à cidade natal da banda. Um dos melhores grupos formados por jornalistas musicais (Pete Wiggs e Bob Stanley) que já conheci, num dos álbuns que iniciaram o processo de revalorização do pop dos 60's com sabor dançante que ocorreu durante a década passada: chique, kitsch, melódico e meigo na medida exata.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Decepção e surpresa agradável

Fui ouvir Through the Windowpane, primeiro álbum dos Guillemots, cheio de expectativas e quebrei a cara... Tantas resenhas elogiosas me fizeram crer que se trataria de uma estréia maravilhosa, mas, ao rolar o som, frustração completa. Uma música afetada, sem vigor, com arranjos de corda exagerados e algumas vezes deslocados em meio ao contexto, sem canções fortes o suficiente para acomodar tamanho "sentimento". Algo como se o Echo and the Bunnymen tivesse surgido após o Arcade Fire. De qualquer forma, em uma música solitária os ingredientes parecem ter dado realmente certo: Trains to Brazil, dedicada ao brasileiro morto no metrô de Londres. Mas é muito, muito pouco para segurar um álbum todo...
Já em relação ao début das Long Blondes (Someone to Drive You Home), que escutei sem esperar algo tão legal, pelas descrições como mais uma banda new wave guitarreira que já havia lido, não digo o mesmo. Letras sagazes, base dançante esperta, guitarras espertas, uma vocalista com personalidade e, principalmente, uma banda focada e com boas composições. Gamei à primeira audição. Blondie com mais guitarras, Elastica com menos fillers chatos por disco... Enfim, todas as lições mais pop do pós-punk/new wave recitadas à perfeição. Recomendadíssimo...

sexta-feira, 6 de abril de 2007

300 equívocos


Quando uma história em quadrinhos consegue ser mais realista e intensa que sua adaptação para o cinema nem há mais o que ser dito... Um filme para ser esquecido.

Clones


You're just a clone,
Got no control,
Forced in a mold,
Processed and sold (...)
Shame, that everyone's the same
I thought you stood alone
Different from the clones
I thought you were the truth
Exception to the rules
But the truth is cruel

Ash - Clones (Meltdown - 2003)

Originalidade é o que faz com que a música pop e qualquer manifestação cultural evoluam. Mais óbvio que isso, talvez apenas dizer que o céu é azul, Elvis sempre será o Rei e Maradona era o cara nos anos 80. Anyway, nem sempre as engrenagens que movem os eixos de tais manifestações são as únicas coisas pelas quais temos nosso interesse despertado. Bandas derivativas, que nunca conseguiram criar absolutamente nenhum trabalho minimamente original, também podem fazer álbuns interessantes e legais, especialmente se tiverem talento suficiente para efetuar a reciclagem dos clichês ou idéias de maneira que os faça soar com fervor e urgência. Abaixo, são citados aleatoriamente alguns clones que podem ser considerados boas opções para os fãs das bandas originais.

Feeder - Cópia britânica dos Smashing Pumpkins, nunca chegaram a ter algum destaque real ou perene. Mas pelo menos deixaram um bom disco (Polythene), com pelo menos uma versão ligeiramente mais pausterizada das baladas de Billy Corgan que conseguia soar realmente legal (High).

Yo La Tengo - Desde a postura de palco do vocalista Ira Kaplan (que, caso se casasse com um traveco, não seria surpresa nenhuma... até por que provavelmente o traveco seria mais feminino que sua companheira, a baterista Georgia Kaplan) até a insistência em forjar melodias ultra-simples de guitarra e músicas onde feedback e white noise eram a ordem da casa, tudo nessa banda americana lembrava muito o grande Velvet Underground. Pelo menos, deixaram três grandes álbuns para a posteridade (Painful, Hear the Heart Beating as One e ...And then Nothing Turned Itself Inside Out).

Trash Can Sinatras - Banda escocesa que chupava descaradamente os Smiths, desde os vocais languidamente melancólicos de Frank Reader, até as tramas de guitarras dedilhadas, adicionando alguma heterossexualidade ao mundo de Morrissey & Marr. Nunca obtiveram grande exposição, mas seu álbum de estréia, Cake, merecia melhor sorte, nem que fosse pelo single Obscurity Knocks.


Galaxie 500 - Dizia-se que poucos ouviram o primeiro álbum do Velvet Underground, mas esses poucos com certeza fundaram algumas bandas. E a reincidência da trupe de Lou Reed por aqui acaba por confirmar essa teoria. O neozelandês Dean Wareham canalizava suas canções sobre desilusão, apatia e inquietude no mesmo pacote protopunk da banda de Reed. Após o fim do Galaxie 500 (que deixou o soberto On Fire), a banda seguinte de Wareham, o Luna, seguiu por essa mesma trilha, conseguindo alguns bons resultados no álbum Bewitched.

The Raveonettes / Black Rebel Motorcycle Club - Dentro da simplicidade de sua proposta, é até certo ponto surpreendente que os escoceses do Jesus and Mary Chain tenham aberto tantas possibilidades dentro de seu noise approach. O duo dinamarquês Raveonettes explora a faceta mais doce da banda, sujando o máximo que pode belas melodias e letras nostálgicas. Já o BRMC trilhava em seus dois primeiros álbuns o caminho mais ríspido e angustiado do lado mais rocker do JAMC, com grande êxito, diga-se. Depois, conheceram a música folk e o country e esqueceram os pedais em casa durante a gravação do terceiro álbum, numa das guinadas mais inesperadas do mundinho indie.