
Minha criação musical se deu quase que completamente nos anos 90. Sempre vale a pena lembrar qual eram os lemas do período histórico em questão, no rock pelo menos: atitude é o que importa, seja lá o que isso signifique. E, no fim das contas, atitude era apenas um item a mais na grande butique do rock'n'roll, vendida como uma espécie de atestado de credibilidade e autenticidade necessário pro imberbe que desenvolvesse algum pendor pelo gênero. Rock progressivo, música erudita, jazz, MPB, tudo que cheirasse a pretensão exagerada era naturalmente rejeitado sem maior crítica. Basicamente, a mídia musical ditava essa conduta. E os tais imberbes não tinham tanto poder de argumentação pra nadar contra a corrente. Felizmente, todos envelhecemos e temos oportunidade pra rever certos conceitos errôneos.
Conheci o Rush (como cerca de 90% dos brasileiros que conhecem a banda) através da abertura do seriado Profissão Perigo, do lendário McGyver, o mestre das gambiarras. A música que rolava era Tom Sawyer, um dos marcos da fase mais pop da banda. Bem, anos depois, com o furacão grunge e a cultura do metal mais extremo permeando o direcionamento que o gosto musical do adolescente médio deveria seguir, ficou difícil tentar conhecer mais a fundo a banda sem se considerar ridículo. Afinal, virtuosismo instrumental e letras bem elaboradas (mesmo que pedantes) não estavam na ordem da casa...
Mais uma década depois, sou obrigado a estender a mão à palmatória e admitir que sempre se tratou de uma puuuta banda. Seja imitando o Led Zeppelin ou fazendo uma versão mais hard do Police, ou mesmo em looongas viagens instrumentais beirando o progressivo, Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart (John Rutsey no primeiro álbum) conseguiram construir uma obra grande com muitos pontos altos. E extremamente divertida também. E esse é o ponto... O preconceito cego que a crítica criada à base de pós-punk/new wave/punk desenvolveu impedia que certas coisas fossem observadas em sua plenitude. Se você considerasse The Spirit of Radio uma música legal, provavelmente você deveria estar com algum problema, algum tipo de retardo. Hoje, poder ler alguma crítica e simplesmente dizer "foda-se" me parece muito mais saudável.
Espero que na próxima vez em que eles passarem pelo Brasil, eu tenha a oportunidade de presenciar seu show. E espero que a lavagem cerebral proposta por certos setores desse moedor de carne chamado crítica não seja tão perene para todos que a conhecem.










