Deixarei bem claro. Esta não é a lista dos melhores álbuns que já ouvi. Muitos discos aqui citados não freqüentam meu som há muitos anos, não apenas por falta de tempo, mas por que já não me dizem mais nada. Além de nada acrescentarem a mim, também não me agradam por razões estéticas mesmo. Apesar disso, em alguma fase da minha vida, foram de importância capital para que eu me tornasse o
rock-addict que sou hoje. Vou apresentá-los de forma cronológica, na seqüência em que foram por mim conhecidos, para que eu possa tentar entender o contexto próprio a cada um deles (a primeira data indica o lançamento, a segunda o ano em que conheci a obra). Que Nick Hornby me cobre os royalties depois...
1- Guns n' Roses - Appetite for Destruction (1988/1990)Aos 10 anos de idade, poucos levam música muito a sério. Até então, minha vida cultural se restringia a livros infanto-juvenis (alguém se lembra da série Vagalume?) e gibis, muitos gibis de super-heróis. Música pra mim era apenas algo incidental (me lembro apenas que nunca gostei de música infantil, mas gravava Michael Jackson, Cindy Lauper e outras coisas das quais não me orgulho muito a partir de rádios FM). Foi então que me deparei, através de uma novela ou um reclame comercial, não me lembro, com
Sweet Child o' Mine. Aquele riff de introdução, o solo e a melodia me inspiraram muito naquela época... Comprei uma fita cassete piratona mesmo e comecei a praticar air guitar no meu quarto com freqüência. E tomei contato com o rock'n'roll, o único relacionamento estável que tive em toda minha vida. Hoje, acho
Sweet Child o' Mine simplesmente chata, com aquele riff de introdução rocambolesco e sua letra ultramelosa. Mas nunca vou negar sua importância pra mim.
2- Iron Maiden - Fear of the Dark (1992/1992)Já portando fitinhas de Guns n' Roses, Faith No More, Scorpions e Oingo Boingo entre outras tralhas, mas ainda sem muito foco, me deparei com um programa chamado Som Pop, apresentado pelo figuraça Kid Vinil (pra mim a essa altura, apenas o cara que cantava "Sou boy"), no caso, um especial sobre heavy metal e hard rock. De repente, toda minha contestação pré-adolescente se encontrou entre clipes de Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden e Sepultura. No dia seguinte, comprei mais essa fitinha e fiquei a escutando por dias a fio, além de desenvolver uma leve predileção por roupas pretas (nada muito sério, na verdade) e pôsteres de bandas e monstros/diabos no meu quarto. E todo som pra mim tinha que ter guitarronas esporrentas, tanto que simpatizei pelo punk/hardcore na mesma época. Acabara de vender minha alma pro rock pesado.
3- Nirvana - Nevermind (1991/1992)Mais próximo do final do ano, li uma matéria sobre o Nirvana no Caderno 2, do Estadão, e achei interessante aquele cara todo cheio de sacadas e tão elogiado pelo jornalista responsável. O Nirvana já tinha estourado nos EUA e rolava aquela história de ter desbancado Michael Jackson das paradas (ícone maior do "pop comercial", um rótulo que me despertava mais do que desdém, verdadeiro ódio). Obviamente, não entendi nada sobre o papo de influências de hardcore, rock inglês, guitar bandas, garage rock, Beatles etc. Corri atrás do disco e... paixão à primeira audição. O que era aquela
Smells Like Teen Spirit??? Vontade de gritar, tocar air guitar e pular pelo quarto, oscilando com os momentos mais calmos, no qual pegava bem ficar fazendo poses reflexivas e angustiadas. Mal sabia eu que o Nirvana, que pra mim era apenas a banda mais quente de rock pesado do momento, abriria as portas pra que eu passasse a ter uma visão mais ampla do rock. Kurt Cobain, com suas entrevistas em que citava bandas até então obscuras, sua revalorização de coisas consideradas "uncool" à época, como AC/DC e o
early Aerosmith, as constantes reverências ao rock dos anos 60, a iconoclastia em relação aos posers, tudo aquilo teve um efeito contundente. E iniciei meus anos de pesquisa em busca de novas bandas e sons, que perdura até hoje. Por isso, sou eternamente grato ao Nirvana. Se fui batizado por Appetite for Destruction e crismado por Fear of the Dark, minha profissão de fé passou a se chamar Nevermind.
4- The Beatles - The Beatles [White Album] (1968/1994)Após iniciar meu culto ao Nirvana, muitos preconceitos que vigoravam nos meus metal years mais xiitas (que duraram pouco tempo,
in fact) caíram por terra. Um vinil que sempre esteve jogado às traças em minha casa, creio que de meu cunhado, foi então escutado, mais por curiosidade, sem qualquer grande expectativa. E descobri os Beatles. Back in the USSR, Birthday, While my Guitar Gently Weeps e Helter Skelter quebraram a resistência metaleira/punk inicial. E abriram as portas para belezas eternas como Blackbird, I Will, Sexy Sadie e Dear Prudence. O que inicialmente era um grande respeito por uma banda sabidamente importante, transformou-se em paixão. Antes tarde do que nunca...
5- Oasis - (What's the Story) Morning Glory (1996/1996)Bom, após uma grande resistência inicial, afinal era difícil aturar a arrogância dos Gallagher antes de conhecer suas canções, e Wonderwall nunca representou grande coisa pra mim, resolvi dar uma chance pro
Morning Glory. E percebi que foi ele quem deu uma chance pra mim, na verdade. Quando ouvi She's Electric, Champagne Supernova e Some Might Say... Bem, aí dava até uma sensação legal: "PUXA, É A MAIOR BANDA DO MUNDO!" E assim caí de cabeça no rock inglês.
6- The Smiths - Hatful of Hollow (1984/1997)Todo adolescente confuso e depressivo deveria conhecer os Smiths (antes que se torne emo)... As canções certas no momento certo. Afora as afetações, faz com que você repense o preconceito contra gente sensível e letras derramadas. E também mostra como guitarras podem ser bem tocadas com poucas notas e muita criatividade. Nem preciso dizer que Heaven Knows I'm Miserable Now virou quase um hino à época, né...
7- The Stone Roses - The Stone Roses (1989/1997)De repente, conhecer os Stone Roses me fez pensar: "dane-se o Oasis, essa é a matriz de todo o melhor britpop!" De fato, os Roses praticamente iniciaram toda a movimentação em torno do novo pop britânico. Trazendo boas influências que andavam meio esquecidas durante os 80's (Beatles, Byrds, Zombies etc), sem medo de experimentações com música eletrônica e, principalmente, com excelentes composições, canções como She Bangs the Drums, I am the Ressurrection e Fools Gold passaram a freqüentar meu toca-discos quase que diariamente. E me fizeram conhecer outras bandas que marcaram essa época para mim, como Charlatans e Happy Mondays.
8- Prodigy - The Fat of the Land (1997/1997)A ojeriza à música eletrônica ainda perdurava em mim até essa época. Foi necessário cair de cabeça nos Stone Roses para perceber que esse radicalismo era mais um resquício de minha fase metálica do que propriamente um asco espontâneo. O Prodigy, que burilou à perfeição seu punk eletrônico nesse álbum, foi o passo seguinte. Breathe e Serial Thrilla foram meu passaporte para esse universo, e para que conhecesse alguns dos artistas que mais ouvi nos anos seguintes, como Moby, Chemical Brothers, Underworld, Orbital e Leftfield, além de passar a curtir muita coisa de hip hop também, especialmente Cypress Hill, House of Pain e Beastie Boys. Ah, também passei a aproveitar muito mais as baladas regadas à big beat que rolavam nessa época.
9- Radiohead - The Bends (1995/1997)Está bem, eu admito. Fui um dos muitos ignorantes que tomaram conhecimento acerca do Radiohead através do reclame da APAE. Achava vergonhoso assumir isso, mas em tempos de acesso difícil à internet e com grana curta para comprar muitas revistas e discos, a realidade era bem diferente. Bem, foi amor instantâneo, primeiro por Fake Plastic Trees, depois por todo o disco, um dos últimos cujas letras ainda lembro perfeitamente. A intensidade das interpretações, a melancolia explícita e as letras bem elaboradas fisgaram não só a mim, mas a toda uma geração de garotos angustiados, que depois formariam suas próprias bandas (Coldplay, Starsailor, Muse etc). Alguns continuariam estudando, contudo...
10- Radiohead - Ok Computer (1997/1998)Bem, pra finalizar a brincadeira, o álbum que acabou com a última das fronteiras que eu insistia em colocar em minhas preferências: o rock progressivo. Não que tenha me tornado um consumidor contumaz de coisas como Emerson, Lake & Palmer e Yes após esse álbum. Mas me tornei muito mais complacente e disposto a conhecer as bandas desse estilo. Acabei odiando algumas coisas muito rococós do Yes, por exemplo, mas também conheci maravilhas como alguns trabalhos do King Crimson, Fragile (do próprio Yes) e coisas do Genesis com Peter Gabriel que ainda fazem parte da minha discoteca básica, além de me tornar consumidor do rock psicodélico de todas as épocas, de Pink Floyd/Syd Barrett, Love e Jefferson Airplane a Mercury Rev, Flaming Lips e bandas da Elephant 6. E esse álbum teve mais importância além disso tudo. Afirmo sem medo de estar enganado que foi o disco que por mais tempo perdura como meu favorito, tendo sido importante pra mim em momentos tão díspares quanto inesperados, seja por suas melodias arrebatadoras, seus efeitos eletrônicos que sempre me surpreendem e suas letras magníficas que me sugerem diferentes interpretações a cada nova audição.
Well, provavelmente me lembrarei de outros 700 discos que me influenciaram nos próximos minutos, mas por ora posso dizer que esse retrato foi o mais espontâneo que pude produzir no momento. As escolhas foram bastante óbvias, levando-se em conta a época em que fui adolescente. Mas não haveria outro jeito. Dificilmente, alguém ouve Can, Faust, United States of America ou mesmo Velvet Underground e Love sem nenhum estímulo externo ou influência prévia. Sou muito grato a esses caras todos que foram citados acima; eles tiveram um belo quinhão de importância pra que hoje eu seja quem sou, e goste das coisas que gosto. Por mais piegas que essa babação de ovo soe...
Espero que postem suas listas pessoais entre os comentários...