sábado, 23 de agosto de 2008

Monstro do Pântano - American Gothic (Alan Moore)


American Gothic é originalmente o título de uma tela de 1939 do pintor norte-americano Grant Wood cujo objetivo era fazer uma homenagem (ou sátira?) aos pioneiros do interior ianque (com sua mítica figura de um casal redneck em frente a uma casa de estilo gótico rural, bastante comum nos povoados pobres do país no final do século XIX). Numa forma de devolver ao termo um sentido mais literal, o escritor britânico Alan Moore criou sob este título na revista Swamp Thing (Monstro do Pântano), em meados da década de 80, um dos maiores marcos dos quadrinhos até então. Tendo assumido a publicação à beira do cancelamento devido às baixas vendas, Moore, então um promissor talento oriundo dos anárquicos quadrinhos britânicos (mas ainda relativamente desconhecido pelas massas) recebeu liberdade quase total da DC Comics para reformular o personagem. Fugindo em parte do approach super-heroístico/sci-fi/terror light que o caracterizava, Moore aprofundou a discussão acerca das origens e conceitos do personagem, levando um outrora monstro advindo de um acidente envolvendo um cientista com produtos experimentais num pântano a se tornar uma espécie de elemental representante da flora universal que tem por razão de existência conciliar os interesses do verde com os da fauna dominante. O arco American Gothic foi publicado entre junho de 1985 e julho de 1986 (e no Brasil em 1990), quase em paralelo à megassaga Crise nas Infinitas Terras, que redefiniu o universo DC, sendo praticamente uma visão mística e milenarista do evento. Em sua primeira aparição, John Constantine, bruxo inglês (e sósia de Sting) egresso de uma banda punk e dotado de cinismo e sagacidade ímpares, surge para solicitar auxílio ao Monstro do Pântano num momento em que, em meio ao desequilíbrio cósmico gerado pela Crise, eventos sobrenaturais bizarros tomam conta dos rincões norte-americanos: vampiros revivem, lobisomens surgem do âmago de vidas amarguradas e frustrações, espíritos da era escravagista possuem uma equipe de atores durante a gravação de um filme de época e uma ancestral organização anarco-místico-terrorista chamada Brujeria intenta destruir a realidade como a conhecemos. Constantine convoca, além do Monstro, um grupo de antigos conhecidos, ex-membros ou roadies de sua antiga banda (Mucous Membrane - quem acompanha as aventuras solo de Constantine os conhece da clássica história Newcastle), agora paranormais, parapsicólogos ou sensitivos para tentar mudar os rumos da história, culminando com a chegada de grande parte dos personagens mágicos da DC Comics, alguns esquecidos há muito tempo naquele momento, como Sargon, Barão Winter, Zatara (pai de Zatanna, feiticeira que já pertenceu à Liga da Justiça e desempenhou papel crucial em Crise de Identidade) entre outros, além de personagens do além, como o demônio Etrigan, Vingador Fantasma, Desafiador e Espectro. A genialidade de Moore é notável por conseguir encontrar um fio condutor e tantas sacadas espertas dentro de um enredo aparentemente caótico, com uma narrativa intrigante e até apavorante em alguns momentos. A arte detalhista de John Totleben e Stephen Bissete valoriza sobremaneira a história, conferindo um tom ainda mais obscuro com seu detalhismo fora dos padrões. Provavelmente, o lançamento de Watchmen só foi possível após o desempenho do Moore em Swamp Thing. E American Gothic, com toda a certeza, está inscrita no cânone das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os sons que vinham da cozinha nos anos de chumbo

Escrito pelo historiador carioca Paulo César de Araújo, o livro Eu não sou cachorro não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar parte de uma interessante premissa: a ausência dos músicos mais populares da música brasileira nas décadas de 60 e 70 na historiagrafia da arte nacional. E quando fala-se em música popular brasileira aqui, não se refere àquilo que tradicionalmente se associa ao rótulo MPB, geralmente ligado aos hoje venerados artistas de vertentes mais intelectuais e politizadas da mesma, como Caetano, Chico, Gil entre tantos outros. Popular aqui é música do povão. Odair José, Nelson Ned, Dom & Ravel, Agnaldo Timóteo, Paulo Sérgio, Waldick Soriano. Músicos tachados como desprovidos de interesses genuinamente artísticos, tidos como alienados, até mesmo vendidos e governistas por alguns setores durante a ditadura. A proposição é polêmica, uma vez que, se analisadas pelo aspecto puramente musical (que não é a intenção do autor), os mesmos não primavam por grandes ambições estilísticas e optavam por caminhos mais ligados ao romantismo melodramático e de apelo imediato. Por outro lado, o poder de comunicação desses músicos com as camadas mais populares era inegável, e sua abordagem de problemas típicos dessas classes não era, de maneira alguma, desprezível. Temas como divórcio (não previsto pela lei nacional até 1977), liberdade sexual, direitos de minorias, entre outros tantos, eram tratados com desenvoltura e mesmo coragem em uma época quando opiniões controversas não podiam ser discutidas com tanta facilidade. Ao analisar também as origens sociais dos músicos, o autor atinge uma compreensão importante do quanto certas afirmações podiam ser injustas ou, pelo menos, enviesadas quando os mesmos eram avaliados pela intelligentsia tipicamente elitista. Por vezes um pouco repetitivo, noutras abertamente parcial em sua visão, o livro consegue estabelecer uma convincente argumentação a respeito de uma nefasta necessidade de limar uma produção musical peculiar da história da música nacional que, goste-se ou não, era composta pelas vozes mais ouvidas de seu tempo e traziam à tona nas temáticas de sua letras problemas de suma importância para seu público-alvo. Recomendadíssimo para se entender mais um entre os zilhões de aspectos curiosos desse país maluco.

João Donato - A Bad Donato (1970)

Músico visceralmente associado à primeira leva de bossa-novistas da década de 60, o acreano João Donato sempre injetou uma forte veia jazzística em suas composições. Porém, esse álbum, com arranjos fenomenais de Eumir Deodato, é um caso à parte. Chutando para escanteio seu lado mais contemplativo, Donato investe num crossover jazz-funk latino mais paralelo às obras de, digamos, Herbie Hancock do que às de seus pares Tom Jobim ou João Gilberto. Um artista talentoso, em seu auge criativo, com liberdade autoral, uma banda de responsa e um grande parceiro nos arranjos: a fórmula para esta pérola perdida da década de 70.

Para baixar: A Bad Donato