quinta-feira, 5 de julho de 2007

O Sol nas bancas de promoção

Colecionar cds sempre foi uma atividade um tanto onerosa, até mesmo em tempos de preços menos inflacionados. Porém, como constitui-se quase que em dependência física/psíquica para alguns, se torna inevitável... Estar no Brasil, especialmente em cidades mais provincianas, tem suas vantagens nesses momentos. Parafraseando uma passagem do jornalista Álvaro Pereira Jr., em um "contexto cultural xenófobo, auto-referente e primordialmente autóctone como o brasileiro", levando-se em conta ainda que boa parcela da população tem dificuldades inclusive em compreender a própria linguagem nativa (os índices de analfabetismo funcional não me permitem mentir), é evidente que, com exceção dos sucessos massificados à força pelos "formadores de opinião", é difícil que alguma obra pop de outro país atinja grande sucesso de vendas por aqui. Além dessas, ainda há grandes trabalhos da própria música nacional que também podem ser encontrados nessa situação. O que dizer então de obras um pouco mais à esquerda do pop? Assim sendo, fuçar bancas de promoção em lojas de discos e sebos acaba sempre sendo uma opção excelente para adquirir e mesmo conhecer bons trabalhos, principalmente quando a opção pela música virtual ainda não foi muito bem assimilada pelo desbravador/consumidor compulsivo. Abaixo, citarei algumas coisinhas obtidas nessas circunstâncias, sempre por preço inferior a 10 pilas...

Ane Brun - A Temporary Dive (2005)
A norueguesa Ane Brun faz um pop delicado, com arranjos de cordas belos e esparsos, ótimos violões, lembrando bastante os bons momentos de Cat Power e Leslie Feist, ou mesmo Tori Amos, principal inspiração de todas as citadas. Tem até participação de Ron Sexsmith na ótima Song no. 6. Confira no encarte a (falta de) beleza da cantora e entenda parte do porquê de sua trajetória rumo ao anonimato.


Youtube:Ane Brun (feat. Ron Sexsmith - Song n. 6

Saves the Day - In Reverie (2003)
Partindo do punk pop/emo dos primeiros álbuns, o Saves the Day conseguiu envelhecer um pouco nesse trabalho, lembrando uma espécie de Death Cab for Cutie da fase Transatlanticism (bem) menos pretensioso. Boas melodias, vocais menos apelativos e tramas de guitarras legais, mostrando que emos podem ter futuro (coisa que os Get Up Kids e, muito antes, o Sunny Day Real State já haviam provado). Dá pra ouvir What went wrong e, especialmente, Driving in the dark e desconsiderar as franjinhas e cabelos coloridos.

Youtube: Saves the Day - Anywhere with you

Novos Baianos - Novos Baianos F.C. / Novos Baianos (Série 2 em 1) (1973/74)
Ambos não têm a mesma genialidade do álbum anterior, o inigualável Acabou Chorare, mas a chance de ouvir a guitarra de Pepeu Gomes, os vocais de Baby Consuelo e os bons sambas de Moraes Moreira e Galvão, todos ainda em seus respectivos auges criativos, ainda por cima por um precinho camarada, é imperdível.


Youtube: Novos Baianos - Mistério do Planeta

The Black Keys - Thickfreakness (2003)
Blues punk com alguma inflexão soul nos vocais, com um groove todo peculiar. Com uma produção menos tosca que os primeiros álbuns dos White Stripes, o também duo produziu um disco de responsa. As faixas Set you free e Hard row, além do boa versão de Have love will travel, de Chuck Berry, convencem fácil, fácil.


Youtube: The Black Keys - Set you free


Astromato - Melodias de uma estrela falsa (2000)
A banda campineira foi saudada por parte da imprensa como possível revelação pop nacional quando lançou esse trabalho, desistindo das composições em inglês de seu projeto anterior, o Weed. Power pop e shoegazer até a medula, o álbum (independente) infelizmente flopou e pode ser encontrado com facilidade em sebos. Só quem ouviu Através da chuva, Canção do adolescente e Cadeialimentar pode se remoer ao imaginar que o povão passou esse tempo todo ouvindo Charlie Brown Jr, Capital Inicial e outra pérolas, enquanto essa maravilha se contentou com uns gatos pingados (e fiéis)...