terça-feira, 12 de outubro de 2010

Apagando a má impressão


Com um repertório muito maior e tocando para a plateia certa (não fãs acéfalos de Iron Maiden ou gente arroz-de-festa pouco interessada em música como no RIR 3), o Queens of the Stone Age matou a pau no SWU ontem, acabando com a imagem negativa deixada nessas terras por sua malfadada apresentação carioca em 2001. Mesmo como o atraso e pequena diminuição na duração, a banda mandou porrada, evitando músicas mais lentas e dando preferência ao esporro stoner que a caracteriza. Após abrirem com o clássico mantra Feelgood Hit of the Summer e imediatamente ficarem com o público na mão, não faltou fôlego para petardos como The Lost Art of Keeping a Secret, Burn the Witch, Little Sister, No One Knows, In my Head, Go with the Flow, a surpreendente I Think I Lost my Headache, entre muitas outras, até o fechamento apoteótico como A Song for the Dead. Pode-se argumentar que o show foi curto, que não foram tocadas músicas do primeiro álbum, que poderia ter rolado alguma coisa do Kyuss, que a comunicação com o público poderia ser maior, mas a entrega, entrosamento e competência técnica da banda compensaram qualquer coisa. Grande show de rock'n'roll, daqueles inesquecíveis!

domingo, 26 de setembro de 2010

O preço

"A pornografia é o preço que tem que ser pago pela liberdade de imprensa."
Milos Forman, cineasta, no lançamento do excelente O Povo Contra Larry Flint

Expando o raciocínio quando vejo patrulhas ao direito de se candidatar a uma cadeira no Legislativo do "palhaço" (perdoem-me, Arrelia, Bozo etc etc) Tiririca. A possibilidade de existência de um candidato semiletrado, praticamente acéfalo e sem qualquer ideia, discurso ou plataforma organizados não é um problema em si própria, muito pelo contrário. Uma candidatura dessas é prova inconteste da plenitude da democracia, da perspectiva de que qualquer cidadão possa ter o desejo de representar a sociedade. O equívoco filosófico nessa questão é a existência de um partido que se permita (e provavelmente estimule) agregar imagem tão negativa, energúmena e contraproducente à sua legenda. Agora, o fato de que existam membros da própria sociedade dispostos a depositar seu voto de confiança em tamanho embuste é o verdadeiro sintoma dessa doença adquirida em decorrência das liberdades democráticas. Alijar um cidadão de suas prerrogativas democráticas devido a seu sofrível nível educacional/cultural é inaceitável. Assim como é inaceitável que partidos se valham de tais expedientes vis e usufruam da existência de eleitores dispostos a jogar seus votos na urna como se esta fosse uma latrina das menos higienizadas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma decepção nua e crua


O início de Juliet Nua e Crua (Juliet Naked), último romance de Nick Hornby, é tão espetacularmente perfeito que faz que pensemos estar diante da melhor obra do autor. A descrição impiedosa de um nerd do universo musical, sua companheira e a desconstrução em paralelo de seu ídolo aposentado (ou caído?) são tão dolorosamente reais e indisfarçáveis que chegam a doer (especialmente se o leito for também um nerd do universo musical). A forma como Hornby aborda a multiplicidade de impressões e sensações a que determinado produto cultural leva em diferentes interlocutores, assim como o processo de iconização de indivíduos normais superexpostos, chega a ser cruel tamanha a sua rispidez. O parasitismo emocional imposto sobre um artefato artístico como forma de sublimar a própria infâmia de uma existência medíocre, fútil e miserável é delineado com prazer sádico por Hornby, curiosamente um autor de cabeceira de todos os parasitas embotados do mundo real.

Tudo muito bom... Não fosse a segunda metade do livro. Uma série de acontecimentos improváveis, coincidências mais do que fortuitas e eventos folhetinescos que obscurecem muito da verossimilhança trágica de sua primeira centena de páginas. Talvez um bloqueio artístico auto-imposto inconscientemente por um autor que cometeu a impostura de trazer à luz o autismo de parte considerável de seu próprio público.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Os Shins mudariam sua vida?



Nessa cena do hoje cult Garden State (2004), Sam , interpretada por Natalie Portman, apresenta a canção New Slang, dos Shins, a Large (Zach Braff). O contraste entre a empolgada apresentação e a fria recepção tornam a cena tocante, provavelmente por que todos já devemos ter passado por isto. Essa percepção individual do mesmo artefato artístico ilustra arrasadoramente o caráter transcendente, único da experiência de ouvir música. Uma forma de expressão artística tão abstrata quanto enganosa... quanto redentora.



P.S.: na vida real, os gostos de Natalie Portman são aterradoramente diferentes, visto que ela já namorou o freak folkster Devendra Banhart...

domingo, 19 de setembro de 2010

LCD Soundsystem se garante em novo trabalho


James Murphy nunca decepciona. Foi um dos caras que definiu o som dos 00s com suas produções com o time da DFA Records, compôs e gravou Losing my Edge, música-símbolo do então chamado "novo rock" e tem em seu currículo Sound of Silver (2007), um dos melhores álbuns da década.

E agora volta à carga com This is Happening. Não roça a quase genialidade pós-pós-moderna de seus dois álbuns anteriores, não tem nada tão perfeito quanto All My Friends ou pegajoso como Daft Punk is Playing at my House, mas ainda assim é um excelente trabalho. Sem tanta pretensão, Murphy cozinha seu arroz com feijão de sempre, costurando referências new wave (Drunk Girls), electro (Pow Pow), tecnopop (One Touch) e pós-punk (All I Want), entre outras trocentas influências, com maestria.

Poucos se lembram de Rapture ou Radio 4, mas do LCD Soundsystem sempre se pode esperar coisa boa.

Disco do ano?

The Suburbs, último álbum do Arcade Fire, teve uma recepção calorosa por parte da crítica, sendo comparado a grandes discos recentes da música pop, especialmente Ok Computer, do Radiohead.

A comparação procede? Creio que não. Mas pode ser facilmente comparado a The Bends.

Ao fincar os pés no chão e tratar de assuntos mais prosaicos e palpáveis do que em seus trabalhos anteriores, Funeral e Neon Bible, o Arcade Fire deu uma bela guinada. O binômio drama/angústia continua forte, assim como o fundo teatral da coisa toda, porém de forma mais contida, em compasso com o abrandamento dos temas abordados. Saem as inquietações sobre morte, fé e existência, entram reminiscências e conflitos mal resolvidos de infância e adolescência. Os arranjos, mais econômicos que de costume, tem mais relação com new wave e pós-punk mundanos do que com a grandiloquência glam/prog de outrora.

Disco do ano? Muito bom trabalho, mas fico ainda com Plastic Beach, do Gorillaz.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Viajando a passos realmente gigantes

Os Boo Radleys são hoje uma distante lembrança da fase de transição da música pop britânica entre o pós-punk choroso dos Smiths e o britpop de arena capitaneado pelo Oasis. Ou seja, fazem parte do grupo de bandas chamadas, de forma outrora pejorativa, hoje definidora, de "shoegazers", ou "olhadores de sapatos", assim chamados pela escassa presença de palco característica de praticamente todos os grupos do período. Vocais etéreos, guitarras fluidas e eletronicamente processadas, algumas tentativas de tornar o som um tanto dançante.

Os Boo Radleys não fugiam a essa fórmula, mas demonstravam personalidade e uma certa necessidade de alargar os horizontes notável desde o início. Pois em Giant Steps, seu terceiro trabalho, eles atingiram o nirvana do shoegazing.

Martin Carr, guitarrista e líder da banda, nunca escondeu sua afeição pelo jazz. Mas nesse álbum, tudo fica ainda mais explícito, a começar por seu título. Aglutinando todas as referências disponíveis de música popular com intenções lisérgicas, Giant Steps (1993) consegue harmonizar psicodelia, prog, dub, free jazz, Beatles, Beach Boys e quase todo o bom pop de todos os tempos de forma assustadoramente perfeita e transcendental. Agora, era possível olhar os sapatos em alto estilo.

Citar músicas individualmente é um exercício fútil; vale a pena ouvir o álbum todo na íntegra, com suas canções fluindo e se transformando na faixa seguinte espontaneamente.

Um grande trabalho de uma banda inspirada, no auge de seu jogo, que nunca mais atingiria tal patamar.

Pequenos tabletes:
Rodney King (Song for Lenny Bruce)
Butterfly McQueen
I Hang Suspended
Lazarus
Barney (...and me)
Best Lose the Fear
I Wish I Was Skinny

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nuvens no sete de setembro


Independência: estado de quem ou do que tem liberdade ou autonomia.


Após longa e preocupante estiagem, nuvens e chuva fina no sete de setembro. Nas comemorações do dia em que nos tornamos "independentes" e deixamos de ser governados pelo então monarca de Portugal e passamos a ser dirigidos pelo... futuro monarca de Portugal.


O acaso do clima, em sua plácida indiferença para conosco, nos traria um involuntário presságio?


“Na primeira noite eles se aproximam sorrateiramente e colhem uma flor de nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
Vladimir Mayakovsky

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Pinceladas

Algumas músicas aleatórias que têm rolado exaustivamente por aqui...


The Make-Up - Live in the Rhythm Hive (1998)
Diretamente do álbum In Mass Mind, essa belezinha sintetiza o conceito de rock de garagem do Make-Up: vocais cuspidos, um riff de guitarra espasmódico a serviço de um groove sujo, tudo secundado por uma linha de baixo incrivelmente dançante. Sensacional, diga-se.



A grande banda esquecida do power pop homenageia Gene Clark, o grande compositor esquecido do country/folk rock. Vocais sôfregos emoldurados por um delicado instrumental acústico compõem essa dolorosa canção sobre perda, desamparo e falta de esperança.


Uma atípica canção soul movida a violões, bateria sequenciada e vocais em falsete, encontrada no único álbum de ChesnuTT (The Headphone Masterpiece). Uma melodia doce e agradável e um início aparentemente ingênuo não preparam o ouvinte incauto para a lascívia deliciosamente adolescente do refrão.



A canção que abre o clássico Eli and the Thirteenth Confession é um belo exemplo de pop complexo sem perder a acessibilidade. Mudanças de andamento, malabarismos vocais, um letra críptica com imagens muito fortes, tudo isso compactado em pouco mais de 3 minutos. Popular demais para fãs de Joni Mitchell, muito complicada para admiradores de Carole King. Coisa fina.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um obra-prima artesanal e oculta de música negra


Tortuosos são os caminhos da música pop. Talento ou qualidade não são suficientes para catapultar ninguém ao estrelato, mas apenas marketing pessoal, aparato monstruoso de promoção e exposição tampouco são garantias de sucesso. Quando faz-se uma opção por trabalhar da forma mais low profile possível então, as chances de despontar para o anonimato são ainda maiores.

Provavelmente, poucos se lembram de Cody ChesnuTT. A referência mais simples é a música "The Seed 2.0", de sua autoria, que virou clipe de rotação relativamente alta na versão do coletivo hip-hop The Roots em 2003, com participação do próprio ChesnuTT inclusive. Pouca coisa ainda assim, não?

Pois após ouvir seu único álbum completo, The Headphone Masterpiece, estou desnorteado. Trata-se de um disco duplo lançado em 2002, com 36 faixas gravadas de forma artesanal, literalmente caseira. ChesnuTT toca todos os instrumentos, programações e canta tudo no álbum. O resultado é embasbacante. Com cara de colcha de retalhos, há fragmentos de soul clássico, guitarras de classic rock, melodias de soft rock e pop setentista, uma vibe largadona meio jamaicana, vocais em falsete que orgulhariam Curtis Mayfield e causariam desconforto num certo baixinho de Minneapolis. E tanto ecletismo, que poderia render uma mistura indigesta ou um som burocrático na linha dos piores momentos de Ben Harper, funciona bem por aqui. As composições são tão boas que dispensam uma produção mais esmerada. E o esquema caseiro contribui para o clima relaxado tão apropriado para algo gravado nessas condições. ChesnuTT descompromissadamente flerta com vários estilos e dá à luz preciosidades como as acústicas Enough of Nothing, She's Still Here e Daddy's Baby, os baladões soul The Make Up, Eric Burdon e 6 Seconds, os rocks básicos The Seed, Upstarts in a Blowout e If We Don't Disagree. Eis aí uma das grandes virtudes de um trabalho tão longo: a imprevisibilidade impera a cada faixa, de repente salta-se de uma paisagem folk bucólica para um racha-assoalho eletrônico, num trabalho aparentemente pouco planejado. Acostumados que estamos a intérpretes comportados como John Legend, alguém como Cody ChesnuTT quebra com vigor as convenções a que a black music mainstream encontra-se confinada nos dias de hoje. Fosse Beck autenticamente negro e espontaneamente ousado e talvez fosse assim que ele soasse. Um verdadeiro tesouro que cresce a cada audição e que não só merece, como tem que sair da obscuridade.

domingo, 22 de agosto de 2010

O Bruxo Preterido

Mais uma vez Paulo Coelho faz uso de seu dom místico de transformar vocábulos em lixo. Nenhuma novidade nisto, e nenhuma crítica particular àqueles que se lançarem avidamente à leitura de suas platitudes e obviedades pseudometafísicas. O objeto de minha indignação é o fato de seu último livro se chamar "O Aleph", tornando-se assim homônimo da coletânea de contos do mestre argentino Jorge Luis Borges (Obs.: Aleph é o nome da primeira letra do alfabeto hebraico). Evidentemente, existem dezenas de livros com nomes iguais, mas neste caso torna-se quase jocosa e indigna a semelhança. Enquanto Borges era um artesão de escrita sucinta, rebuscada e enciclopédica até a medida adequada, entrecortada por subtextos e significados ocultos, sempre com um caráter transcendental sem se utilizar de misticismo de araque, Coelho representa exatamente seu oposto: prolixo, paupérrimo no aspecto linguístico, redundante e apelativo de forma desavergonhada, aproximando sua prosa vulgar dos chavões mais torpes da chamada "literatura" de autoajuda. O Aleph, representação do infinito indefínivel, indecifrável e inconcebível diante de nossa pequenez segundo o conto de Borges, não merecia essa ignomínia. Coelho deveria batizar seu livro como "O Tav", última letra do alfabeto hebraico, assim marcando de forma clara sua distância intelectual e artistica do gênio portenho.

Quando o rock voltou à roça

É sabido que, de forma bem reducionista, o rock'n'roll nasceu do cruzamento entre os lamentos negros do blues e a dinâmica redneck do country. Originalmente, as influências de country&western, honky tonk e hillbilly foram usadas para amenizar e tornar mais tolerável a então chamada "race music" para ouvidinhos wasp. Vez por outra, a dosagem destes elementos na mistura pendeu mais para um lado, e nesse tópico o interesse recai nos estilos calcados no lado caipira da coisa.
Country rock, alternative country, cowpunk, Americana... Vários rótulos já foram utilizados para definir praticantes dessa tendência, mas pela própria natureza mutante e errática do rock nem sempre são facilmente aplicáveis. Na década de 50, seria impossível aplicar essas definições, pois soariam redundantes. Até que ponto Elvis Presley ou Johnny Cash são country com influências roqueiras ou roqueiros com um pé na roça? A partir dos 60s, tornou-se mais fácil delimitar tais movimentos, uma vez que bandas originalmente roqueiras voltavam-se para as raízes após um início mais, digamos, urbano.
Na primeira metade da década de 60, os Beatles gravaram I'll Cry Instead e Baby's in Black no álbum Beatles for Sale (1964). Em 1966, os Rolling Stones lançaram High and Dry e o Buffalo Springfield Go and Say Goodbye. Bob Dylan, após eletrificar seu som pouco antes para horror dos puristas, deu meia-volta, e, com o clássico Blonde on Blonde, gravou em Nashville várias canções com sotaque country. Mas o maior impulso veio mesmo dos Byrds. Desde o início uma banda de rock psicodélico com inflexão folk, a entrada de um jovem músico californiano chamado Gram Parsons mudou radicalmente a visão musical do grupo, introduzindo toda uma temática e, por que não?, uma alma country em seu som. Proveniente da International Submarine Band (primeiro grupo digno de nota a praticar exclusivamente o country rock), Parsons definia suas composições como "Cosmic American Music". O álbum Sweetheart of the Rodeo (1968) teve tamanho impacto sobre os Byrds que, mesmo após a saída de Parsons, todos os trabalhos subsequentes da banda e de seus membros, tiveram fortes ecos dessa veia rural. Após sair dos Byrds, Parsons expandiu os limites do estilo com The Flying Burrito Brothers e em carreira solo. Pode-se dizer que os álbuns The Gilded Palace of Sin (FBB, 1969) e G.P. (solo, 1973) são os pontos mais altos, com perene influência e qualidade indelével. A falta de sucesso massivo de público, associada a um comportamento junkie levou o genial Parsons à morte precoce em 1973, aos 26 anos.
Curiosamente, o estilo atingiu grande sucesso comercial na década de 70, em versão menos rústica, mais apropriada para as rádios. Emmylou Harris, Doobie Brothers (em sua primeira formação), Linda Ronstadt e, principalmente, os Eagles lograram grande êxito (e vendagens) com um som mais polido, de uma melancolia menos palpável e facilmente palatável para um público normalmente conservador. É importante se lembrar também do swamp rock de Creedence Clearwater Revival e do folk rock de Neil Young, The Band e Crosby, Stills, Nash & Young, todos com grande dose de country em sua formatação. O Grateful Dead, mais associado ao blues rock viajandão do começo de carreira e suas experiências em happenings promovidos pelo doidão Ken Kesey, também tiveram uma queda pelo country rock, lançandos dois de seus melhores álbuns, inclusive: Workingman's Dead e American Beauty, ambos de 1970.
Paralelamente a isso, algumas bandas se voltaram para uma interpretação mais pesada do estilo, ligadas a guitarras mais bluesy, ou mesmo hard rock, levando ao southern rock. Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd, especialmente, legaram grandes obras nesse estilo, especialmente os álbuns At Filmore East (1971) e Pronounced Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd (1973), respectivamente.
Neil Young, com seu álbum Zuma (1975), lançou as bases para o que seria chamado de cowpunk. No Brasil, havia o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabira, interpretando o sotaque country nacional através de guarânias e modas de viola em um formato roqueiro.
Na década de 80, o country rock era considerado primitivo e pouco dançante demais para plateias cada vez mais voltadas para os sons pasteurizados e superproduzidos do rock de arena e do tecnopop. Houve alguns bons discos de grupos como Blue Rodeo e artistas como Steve Earle, mas sem o mesmo brilho de outrora. Grupos independentes de filiação punk como Replacements e Meat Puppets resgataram a essência cowpunk de Neil Young e lançaram em 1984 seus clássicos Let It Be e II, respectivamente, ambos para uma audiência bastante restrita.
Na década de 90, com a explosão alternativa proporcionada por Nevermind, do Nirvana, houve a oportunidade para que essa estética atingisse novamente um público maior e tivesse mais visibilidade junto à mídia. Bandas como Uncle Tupelo e Jayhawks lançaram as sementes para o que foi chamado de alternative country, ou simplesmente alt country. O estilo tinha menos amarras que seus predessores, até pela característica caleidoscópica do pop dos 90s. Wilco e Son Volt (ambas originárias das cinzas do Uncle Tupelo), Josh Rouse, Drive-By Truckers e Neko Case são alguns dos destaques dessa safra, cada qual com suas peculiaridades. Hipsters inclassificáveis como Beck Hansen e até algumas bandas que então frequentavam o hit parade, como Soul Asylum e Lemonheads, deixaram seu lado capiau vir à tona. O Wilco, particularmente, tornou-se uma banda com grande séquito de seguidores, lançando trabalhos que variavam desde country rock tradicional (Being There, 1996) até rock experimental (A Ghost is Born, 2004) e power pop (Summerteeth, 1999). Já Josh Rouse aproximou-se da soul music e do soft rock para lançar alguns dos álbuns conceituais mais interessantes dos naughties, especificamente 1972 (2003) e Nashville (2005). Até mesmo escroques do infame nu metal como Kid Rock e Uncle Kracker tentaram injetar algum sabor hillbilly a seu som calcado em batidas eletrônicas, guitarras saturadas e vocais hip hop. E há ainda os Supersuckers, que são parte da primeira leva do grunge de Seattle (mas que eram de Tucson, Arizona), que, em meio a trabalhos de puro esporro punk/hardcore/metal, encontram espaço para deixar aflorar o som típico de sua terra de origem, tendo inclusive gravado com Willie Nelson, a lenda viva. Merece menção à parte Ryan Adams. Egresso da promissora banda Whiskeytown, Adams é um dos profícuos cantores de seu tempo, lançando praticamente um ou mais álbuns por ano. Evidentemente, nem sempre acerta a mão, mas quando isso ocorre saem maravilhas como Gold (2001) e 29 (2005), belos e tristes em sua visão estilizada e pós-moderna da música country.
Com sua beleza singela, associada à melancolia e vivacidade típicas da temática rural, o country&western é e sempre será sempre bem-vindo no contexto roqueiro, como que criando um idílio utopicamente bucólico em meio ao caos urbano. E sempre é válido lembrar: eles usavam botinas muito antes dos punks.

Beatles - I'll cry instead
Byrds - Hickory Wind
Flying Burrito Brothers - Sin City
Gram Parsons - Brass Buttons
Gram Parsons - She
Gram Parsons & Emmylou Harris - Love Hurts
Grateful Dead - Box of Rain
Allman Brothers Band - Whipping Post
Lynyrd Skynyrd - Freebird
Neil Young - Don't cry no tears
Sá, Rodrix e Guarabira - Mestre Jonas
Replacements - I Will Dare
Meat Puppets - Lake of Fire
Uncle Tupelo - Graveyard Shift
Jayhawks - Waiting for the Sun
Wilco - Red Eyed and Blue
Josh Rouse - Quiet Town
Supersuckers - Dead on the Water

Joss Stone dá meia volta e se dá bem

Quando surgiu no showbizz em 2003, com apenas 16 anos, Joss Stone foi imediatamente notada e aclamada pelo poder de sua voz e pelo resgate de um soul com influências bluesísticas bastante orgânico, sem samplers ou efeitos eletrônicos em profusão, diferindo muito neste aspecto do r&b que dominava as paradas. Além disso, é claro, o contraste entre seu vozeirão grave e negro com sua pele alvíssima também chamava a atenção. Em seu terceiro álbum, Introducing Joss Stone, provavelmente influenciada por estratégias de marketing mal engendradas e desejo de atingir um público maior (e menos seletivo, provavelmente) aderiu à parafernália eletrônica e aos macetes do tal r&b (ou urban). Com isso, tornou-se simplesmente mais uma cantora (com mais potência vocal e técnica, sim) em meio a uma multidão, perdendo boa parte do brilho. Pois bem, em seu último álbum (Colour me Free), a pretensa diva voltou a seus bons dias. Canções conduzidas por linhas de guitarra e órgãos analógicos no melhor estilo Motown/Stax, backing vocals com inflexão gospel e uma cozinha completamente humana. Fazendo o que sabe, não houve erro, e abundaram boas músicas. Free Me lembra o lado mais bubblegum da Motown (o riff de guitarra é puro Jackson 5), Big 'Ol Game (com o mestre do neo-soul Raphael Saadiq) e Parallel Lines (com Jeff Beck) têm um groove orgânico e pesado típico do som que os Bar-Kays faziam para a Stax. O álbum perde parte de seu fôlego no quarto final, mas ainda assim é um grande alento frente à decepção provocada pelo disco anterior.

Free Me
Parallel Lines
Big 'Ol Game

sábado, 21 de agosto de 2010

Belezinhas bem escondidas

Algumas pinceladas sobre discos semi-obscuros garimpados a preços módicos pela internet recentemente, mas que merecem ser ouvidos...

Eggman - First Fruits
Os Boo Radleys nunca chegaram perto do sucesso de público, até por que eram parte da geração espremida entre o pós-punk passivo-agressivo de Smiths e Jesus & Mary Chain e o britpop populista de Oasis e congêneres. Sim, eram shoegazers, tinham carisma nulo e eram chegados a um rock com guitarras fluidas, vocais etéreos e muitos efeitos de estúdio. Eggman foi um projeto-solo de seu vocalista, Sice, onde, meio que fazendo o caminho inverso dos projetos-solo, tudo era mais fácil e menos experimental que na banda de origem. Maneirismos shoegazers filtrados por métodos de composição mais clássicos, com um pé no Fab Four, num álbum tão legal de ser ouvido quanto difícil de ser encontrado.

Eggman - First Fruits

The A-Sides - Silver Storms
Uma banda chegada a um bom pop clássico de fácil assimilação, com vocais que lembram uma versão mais contida e intimista de Ian McCulloch (Echo and the Bunnymen) e linhas melódicas vagamente próximas dos momentos mais sublimes de Walkmen ou mesmo do Coldplay em início de carreira, sempre com ecos de Zombies, Beatles e Beach Boys. O álbum começa num tom radiante, mas evolui para um lado mais sombrio e melancólico em sua segunda metade, mas a qualidade das composições se mantém sempre em alto nível.

Cinematic


Mexico 70 - Imperial Comet Hour
Uma banda com um nome como "Mexico 70" provoca curiosidade imediatamente. Mas seu som passa longe dos mariachis da terra de Chavez e Seu Madruga. Trata-se da banda de Mick Bund, que fez parte da finada cult band Felt. O som tem um parentesco bem distante com a banda matriz, especialmente nas influências de Byrds e outros bichos psicodélicos dos 60's. Mas, no lugar do clima introspectivo e francamente intimista do Felt, aqui temos um som mais ensolarado e direto, que lembra um pouco o lado mais pop de Prefab Sprout e Aztec Camera e dos primeiros trabalhos do R.E.M. E, a propósito do nome da banda, há uma música chamada Best & Hurst, que homenageia George Best (irlandês considerado um dos melhores atacantes da história do Manchester United) e Geoff Hurst (atacante do West Ham e único jogador da história a anotar 3 gols em uma final de Copa do Mundo, a de 1966).

Mexico 70 no myspace

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Meus discos irrelevantes favoritos (Oh Sweet Nuthin')

Todo ano saem listas e mais listas de "melhores álbuns de todos os tempos", "melhores discos da década" etc etc etc... Mas, previsivelmente, sempre existem aqueles 100 discos que representam a intersecção de todas as listas, obras que beiram a absoluta unanimidade. E muitas vezes com razão... Afinal, quem seria maluco o suficiente para desqualificar trabalhos como Sgt Pepper's, Pet Sounds, Exile on Main Street, Kind of Blue ou What's Going On??? Mas sempre há um porém. E aqueles álbuns que todos nós sempre insistimos em considerar o suprassumo da música popular do século, mas que são ignorados solenemente por praticamente todo o restante dos habitantes do planeta? São obras que, se não são achincalhadas pela crítica, geralmente recebem notas entre 7,5 e 9 quando são lançadas, possuem um certo séquito de admiradores, mas sequer resvalam no imaginário coletivo da maioria até mesmo daqueles que acompanham atentamente o universo pop. Preferências idiossincráticas, segredos bem guardados, chame-os como quiser, mas todos têm seus álbuns irrelevantes preferidos. Este pobre escriba lista abaixo alguns que fazem parte de suas escolhas particulares.

Josh Rouse - 1972 (2003)
Quando lançou Dressed up like Nebraska (1998), Rouse foi bastante associado à onda de alternative country que se iniciou nos EUA após a implosão do grunge e ganhou certa força (entre o povo indie evidentemente) no começo dos naughties, na cola de um pessoal de responsa do quilate de Wilco, Ryan Adams e seu Whiskeytown, Jesse Harris, Jayhawks e Lambchop. Mas o som e a temática de Josh eram muito mais abrangentes. 1972 é uma referência ao ano de nascimento de seu autor, e sua música é executada como se tivesse sido composta e gravada na década em questão. Influências nítidas de soft rock setentista, soul music e pop clássico, homenageando explicitamente gente como Carole King (citada na faixa título), Marvin Gaye, Al Green, Fleetwood Mac, Nick Drake e James Taylor... E o principal, excelentes canções, com letras nostálgicas e reflexivas, evocando temas cotidianos e comuns a todos. Um álbum belo e consciente de sua desimportância, que traz à tona o lado mais inocente, doce e pretensamente feliz de uma década nem um pouco ingênua, tampouco menos amarga. Mas deixemos de lado a verossimilhança e apreciemos esse maravilhoso disco com cheiro de pipoca e gosto de bolo da mamãe, esperançoso quanto ao fim da Guerra Fria e ansioso pela aterrissagem em Marte. Que a realidade fique com os jornais e livros de história.

Veja o clipe de Love Vibration.

The Lemonheads - Come on Feel the Lemonheads (1992)
Quem ouve as histórias sobre o comportamento escroto e junkie de Evan Dando dificilmente entende a leveza e doçura de suas canções. Melodias ensolaradas, vocais suaves e letras inócuas ilustrando as idas e vindas de existências tão ocas quanto dissipativas e despropositadas. Mas isso não é demérito algum, afinal existe toda uma arte em tornar tão belo e assobiável o vazio.

Into Your Arms
It's About Time (apresentando Angelina Jolie ainda adolescente em 1993)
Being Around



The Makers - Rock Star God (2000)
Uma banda a princípio garageira por excelência, praticante de rock sujo, barulhento e cheio daquele groove sexual que arrebanha as almas das pobres criancinhas desde os primeiros discos dos Rolling Stones, que resolve abrir um pouco a palheta de cores de seu som. Com uma produção mais polida que o habitual, guitarras mais trabalhadas (um pouquinho mais, na verdade), timbres de glam rock, um pianinho aqui, um arranjo vagabundo de cordas ali e uma atitude ainda mais brejeira que a habitual, os malacos gravaram essa belezinha. Aqui temos desde New York Dolls com mais anfetaminas (Looking for a Supergirl, Better Way Down), Iggy Pop com os pés no chão (God's Playing Favorites), até baladinha com inflexão soul (Texture of a Girl). Uma aula de como uma banda pode evoluir sem se tornar "madura" ou simplesmente chata.

Give me Back Yesterday

Fountains of Wayne - Fountains of Wayne (1996)
Power pop é um termo com mais de uma conotação, podendo corresponder a coisas que vão desde o folk pop pastoril e beatlemaníaco do Big Star até a new wave intelectualizada do XTC, passando pelo hard rock redondo e engraçadinho do Cheap Trick e chegando até a miscelânea pós-tudo de Teenage Fanclub, Matthew Sweet, Weezer e Jellyfish. Mas poucos conseguiram condensar num único álbum tantas cançõezinhas melodiosas com cara de tarde ensolarada como essa dupla. Não ouse procurar originalidade nesse disco. O negócio aqui é diversão simples e sem compromisso algum com profundidade ou complexidade, com sabor sixty (She's Got a Problem), grunge (Radiation Vibe, Sick Day), folk (You Curse at Girls), new wave (Barbara H., Sink to the Bottom), entre outros quitutes pop de 3 minutos.

Radiation Vibe

Turbonegro - Apocalypse Dudes (1998)
Ganha um prêmio quem descobrir o que é colocado nos reservatórios de água da Suécia. A concentração de bandas legais que surge por lá merece algum tipo de estudo, ainda mais se levarmos em conta a variedade de estilos que elas praticam, variando desde pop clássico com um pé no brega (Cardigans, Komeda, Wannadies) até metal do mais extremo (nem vale a pena listar). Um estilo muito caro a nossos amigos escandinavos é uma espécie de crossover punk/garage/glam/hard rock, praticado por Hellacopters, Backyard Babies, Flaming Sideburns entre outros. Mas o Turbonegro merece menção à parte. Com um nome desses nem precisaria de muita música para chamar a atenção, mas esse álbum é uma pancada nos sentidos. Unindo esporro punk, riffs glam e hard, solos e ideologia metálica de butique com uma atitude brejeira e humor de mau gosto à toda prova, o Turbonegro cravou o mais adolescente de todos os discos de rock. Antissocial e tosco como convém, mas sem perder a (auto) ironia jamais, esse álbum mostra como algumas das coisas mais imbecis e sem requinte da juventude podem ser muito, mas muito divertidas quando encaradas com a devida (falta de) seriedade. Satanismo de araque, sexismo e misoginia de mentirinha, hedonismo geek num mix bem elaborado de Alice Cooper, Mötley Crüe, Sex Pistols, T.Rex, Black Flag e Motörhead.

Veja os clipes de Get It On e Are You Ready for Some Darkness?