segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Arqueiro Verde de Kevin Smith


Nas HQs, reviver heróis mortos é um dos abacaxis que as editoras jogam no colo de seus roteiristas freqüentemente. Especialmente na década de 90, quando uma carga extra de violência e "realismo" foi incorporada ao gênero, isso se tornou quase regra, como é possível verificar nas constrangedoras (e nada saudosas) sagas A Morte de Superman e A Queda do Morcego. Com personagens menos célebres, nada muito diferente. O Arqueiro Verde, apesar de ser um simpático membro constante de várias formações da Liga da Justiça, sempre foi uma figura menor no universo DC. De qualquer forma, durante a onda sanguinária da década passada, foi prematuramente morto numa explosão sem lá muito glamour. E, conforme esperado, planejou-se sua volta algum tempo depois. Ou seja, lá viria mais uma história rocambolesca envolvendo metafísica barata, viagens no tempo, heróis místicos, gênios científicos etc... Bem, se uma explicação fajuta para a volta do herói era inevitável, então por que não torná-la, pelo menos, divertida? Kevin Smith, diretor de filmes undeground anárquicos como Procura-se Amy e O Balconista, além do mais comercial Dogma (aquele em que Alanis Morrissette interpreta Deus) e fanático por histórias em quadrinhos, foi convidado para a empreitada. E o resultado foi incrível. Citações à cultura pop, diálogos incisivos, piadas infames, personagens obscuros trazidos à tona (quem imaginaria Stanley e seu Monstro daquela maneira?) em uma trama maluca envolvendo cultos satanistas, romances mal resolvidos e reencontros inevitáveis com os demais heróis da franquia (as participações de Batman, Etrigan e Gavião Negro são sensacionais). Os desenhos de Phil Hester são, no máximo, adequados, mas a história flui tão bem graças ao roteiro bem amarrado que a leitura torna-se por demais prazerosa. Smith pode até errar a mão algumas vezes, mas quando acerta é entretenimento inteligente garantido. E consegue fazer até um plot capenga parecer palatável justamente por ser bem conduzido.

sábado, 23 de agosto de 2008

Monstro do Pântano - American Gothic (Alan Moore)


American Gothic é originalmente o título de uma tela de 1939 do pintor norte-americano Grant Wood cujo objetivo era fazer uma homenagem (ou sátira?) aos pioneiros do interior ianque (com sua mítica figura de um casal redneck em frente a uma casa de estilo gótico rural, bastante comum nos povoados pobres do país no final do século XIX). Numa forma de devolver ao termo um sentido mais literal, o escritor britânico Alan Moore criou sob este título na revista Swamp Thing (Monstro do Pântano), em meados da década de 80, um dos maiores marcos dos quadrinhos até então. Tendo assumido a publicação à beira do cancelamento devido às baixas vendas, Moore, então um promissor talento oriundo dos anárquicos quadrinhos britânicos (mas ainda relativamente desconhecido pelas massas) recebeu liberdade quase total da DC Comics para reformular o personagem. Fugindo em parte do approach super-heroístico/sci-fi/terror light que o caracterizava, Moore aprofundou a discussão acerca das origens e conceitos do personagem, levando um outrora monstro advindo de um acidente envolvendo um cientista com produtos experimentais num pântano a se tornar uma espécie de elemental representante da flora universal que tem por razão de existência conciliar os interesses do verde com os da fauna dominante. O arco American Gothic foi publicado entre junho de 1985 e julho de 1986 (e no Brasil em 1990), quase em paralelo à megassaga Crise nas Infinitas Terras, que redefiniu o universo DC, sendo praticamente uma visão mística e milenarista do evento. Em sua primeira aparição, John Constantine, bruxo inglês (e sósia de Sting) egresso de uma banda punk e dotado de cinismo e sagacidade ímpares, surge para solicitar auxílio ao Monstro do Pântano num momento em que, em meio ao desequilíbrio cósmico gerado pela Crise, eventos sobrenaturais bizarros tomam conta dos rincões norte-americanos: vampiros revivem, lobisomens surgem do âmago de vidas amarguradas e frustrações, espíritos da era escravagista possuem uma equipe de atores durante a gravação de um filme de época e uma ancestral organização anarco-místico-terrorista chamada Brujeria intenta destruir a realidade como a conhecemos. Constantine convoca, além do Monstro, um grupo de antigos conhecidos, ex-membros ou roadies de sua antiga banda (Mucous Membrane - quem acompanha as aventuras solo de Constantine os conhece da clássica história Newcastle), agora paranormais, parapsicólogos ou sensitivos para tentar mudar os rumos da história, culminando com a chegada de grande parte dos personagens mágicos da DC Comics, alguns esquecidos há muito tempo naquele momento, como Sargon, Barão Winter, Zatara (pai de Zatanna, feiticeira que já pertenceu à Liga da Justiça e desempenhou papel crucial em Crise de Identidade) entre outros, além de personagens do além, como o demônio Etrigan, Vingador Fantasma, Desafiador e Espectro. A genialidade de Moore é notável por conseguir encontrar um fio condutor e tantas sacadas espertas dentro de um enredo aparentemente caótico, com uma narrativa intrigante e até apavorante em alguns momentos. A arte detalhista de John Totleben e Stephen Bissete valoriza sobremaneira a história, conferindo um tom ainda mais obscuro com seu detalhismo fora dos padrões. Provavelmente, o lançamento de Watchmen só foi possível após o desempenho do Moore em Swamp Thing. E American Gothic, com toda a certeza, está inscrita no cânone das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os sons que vinham da cozinha nos anos de chumbo

Escrito pelo historiador carioca Paulo César de Araújo, o livro Eu não sou cachorro não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar parte de uma interessante premissa: a ausência dos músicos mais populares da música brasileira nas décadas de 60 e 70 na historiagrafia da arte nacional. E quando fala-se em música popular brasileira aqui, não se refere àquilo que tradicionalmente se associa ao rótulo MPB, geralmente ligado aos hoje venerados artistas de vertentes mais intelectuais e politizadas da mesma, como Caetano, Chico, Gil entre tantos outros. Popular aqui é música do povão. Odair José, Nelson Ned, Dom & Ravel, Agnaldo Timóteo, Paulo Sérgio, Waldick Soriano. Músicos tachados como desprovidos de interesses genuinamente artísticos, tidos como alienados, até mesmo vendidos e governistas por alguns setores durante a ditadura. A proposição é polêmica, uma vez que, se analisadas pelo aspecto puramente musical (que não é a intenção do autor), os mesmos não primavam por grandes ambições estilísticas e optavam por caminhos mais ligados ao romantismo melodramático e de apelo imediato. Por outro lado, o poder de comunicação desses músicos com as camadas mais populares era inegável, e sua abordagem de problemas típicos dessas classes não era, de maneira alguma, desprezível. Temas como divórcio (não previsto pela lei nacional até 1977), liberdade sexual, direitos de minorias, entre outros tantos, eram tratados com desenvoltura e mesmo coragem em uma época quando opiniões controversas não podiam ser discutidas com tanta facilidade. Ao analisar também as origens sociais dos músicos, o autor atinge uma compreensão importante do quanto certas afirmações podiam ser injustas ou, pelo menos, enviesadas quando os mesmos eram avaliados pela intelligentsia tipicamente elitista. Por vezes um pouco repetitivo, noutras abertamente parcial em sua visão, o livro consegue estabelecer uma convincente argumentação a respeito de uma nefasta necessidade de limar uma produção musical peculiar da história da música nacional que, goste-se ou não, era composta pelas vozes mais ouvidas de seu tempo e traziam à tona nas temáticas de sua letras problemas de suma importância para seu público-alvo. Recomendadíssimo para se entender mais um entre os zilhões de aspectos curiosos desse país maluco.

João Donato - A Bad Donato (1970)

Músico visceralmente associado à primeira leva de bossa-novistas da década de 60, o acreano João Donato sempre injetou uma forte veia jazzística em suas composições. Porém, esse álbum, com arranjos fenomenais de Eumir Deodato, é um caso à parte. Chutando para escanteio seu lado mais contemplativo, Donato investe num crossover jazz-funk latino mais paralelo às obras de, digamos, Herbie Hancock do que às de seus pares Tom Jobim ou João Gilberto. Um artista talentoso, em seu auge criativo, com liberdade autoral, uma banda de responsa e um grande parceiro nos arranjos: a fórmula para esta pérola perdida da década de 70.

Para baixar: A Bad Donato

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Astro City


Após anos labutando em títulos de menor impacto e sem grande liberdade criativa graças às amarras editoriais típicas dos quadrinhos de super-herói, o escritor Kurt Busiek apareceu de fato na minissérie Marvels (1994), parceria com o desenhista/pintor Alex Ross, que propunha uma visão humanizada para as origens do Universo Marvel. A abordagem fugia aos clichês típicos do gênero, aprofundando a velha questão sobre como seria o impacto da existência de super-heróis num mundo próximo ao real. Pouco tempo depois, trouxe à tona, inicialmente pela Image Comics, aquela que acredito ser sua obra-prima. Astro City, co-criação com Brent Anderson e Alex Ross, narra a vida em uma cidade povoada por superseres, homenageando idéias e conceitos que definem os quadrinhos de super-heróis desde a Era de Ouro até os dias atuais, invertendo o ponto de vista de Marvels. O foco agora passa a ser a vida de um herói dentro do mundo real, muitas vezes mais confuso e complexo que o mundo fictício das páginas hipercoloridas dos gibis. Diversos habitantes de Astro City são paródias explícitas de cruzados clássicos, como Inquisidor & Altar Boy (Batman & Robin), Samaritano (Superman), All-American (Capitão América), A Primeira Família (Quarteto Fantástico), entre outros tantos. Explorando os dilemas morais, problemas prosaicos e conflitos emocionais dos envolvidos, Busiek dá uma dimensão trágica e humanista a questões singelas que poderiam passar despercebidas em meio a crimes do dia-a-dia, invasões alienígenas e confrontos com supervilões que almejam a dominação mundial. Com citações a muitos autores clássicos, a série Astro City é mais do que uma rebuscada história de heróis para adultos. É uma linda declaração de amor a um gênero que sobrevive de forma realmente heróica à inexorável passagem do tempo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Estupidez não vai alimentar minha alma


Os Manic Street Preachers são praticamente um guilty pleasure do mundinho indie. Evidentemente, já forjaram grandes trabalhos, especialmente o álbum The Holy Bible, canto-de-cisne do período em que contavam com o guitarrista e compositor Richey James que, afora suas limitações técnicas, era capaz de musicar e criar grandes canções tendo como pano de fundo as inquietações advindas de sua turbulenta vida pessoal e de sua confusa visão do mundo, tendo como alicerce um hard rock eficiente com muita influência punk e alguns elementos das mais rasteiras bandas de glam metal da década de 80. Após o estranho desaparecimento de Richey, os Manics remanescentes optaram por cantar uma busca por ideais e a defesa intransigente de uma cartilha política ultrapassada e infantil que culminou em álbuns povoados por manifestos de auto-ajuda entremeados com libelos panfletários verdadeiramente embaraçosos. Havia espasmos criativos ainda, mas para cada um destes sempre havia bobagens em quantidade suficiente para decepcionar os mais dedicados (e sensatos) admiradores. O auge dessa guinada rumo à idiotice foi, com certeza, o álbum Know your Enemy, de 2001. Não bastando a batida estratégia de tocar em Cuba durante a turnê do álbum (obviamente lançado por uma multinacional), a banda conseguiu aprofundar o que já era vexatório no single Masses against the classes, lançado pouco antes da bolacha, preenchendo o álbum com letras de protesto pífias e palavras de ordem que fariam todo o sentido em algum ponto perdido da década de 60, mas que hoje soam apenas como declarações de ignorância anacrônica e total descompasso com o atual estado das coisas, culminando na sintomática Freedom of speech won't feed my children, último prego no caixão de qualquer resquício de sensatez que a banda poderia ostentar. Um horrendo epitáfio para um grupo que sempre se valeu de todas as facilidades do torpe mundo capitalista para divulgar seus princípios. Verdadeiros luxos como liberdade de expressão e imprensa... Felizmente, a história já mostrou que a música não basta para mudar o mundo. Se discos como esse mudassem algo, com certeza não seria para melhor. Hasta la revolución, siempre!

Electric Six - Fire (2003)

Hoje talvez o som dessa banda de Detroit não ofereça nada demais. Mas quando foi lançado, em meio ao revival de garage rock capitaneado por Hives, Von Bondies e seus conterrâneos White Stripes, fazia todo o sentido. A princípio, um rock sujo, pesado, com bons riffs e referências a Stooges, AC/DC, Sex Pistols, com um diferencial: aqui e acolá, uma cozinha disco/funk temperava o som dos caras com um sabor dançante irresistível. A explosão do então chamado novo rock, com suas bandas que resgatavam os sons do pós-punk e da new wave era o contexto apropriado para a banda e seu som irreverente. Danger: high voltage e Gay bar são divertidíssimas até hoje, com seus vocais graves à Lemmy Kilmister, ritmos manjados e letras toscas. A banda existe até hoje, mas nunca mais alcançou a mesma exposição, apesar de continuar lançando discos interessantes. E os clipes de Gay bar são verdadeiros tesouros perdidos, como é possível conferir abaixo...

Youtube: Gay bar (Bush/Blair) (versão banida nos EUA)
Youtube: Danger: High voltage
Youtube: Gay Bar (Abraham Lincoln)
Youtube: Dance Commander
Youtube: Synthesizer

terça-feira, 8 de julho de 2008

MGMT - Oracular Spectacular (2008)

Dave Fridmann é mesmo o cara. Produzindo alguns dos melhores trabalhos da década passada, especialmente com seus parceiros Flaming Lips (Soft Bulletin, de 1999) e Mercury Rev (Deserter's Songs, de 1998), além de ótimas bandas como Delgados, Phantom Planet e Mogwai, Fridmann praticamente definiu uma sonoridade própria a seu corpo de trabalho, um rock psicodélico com arranjos requintados e densos, até sinfônicos, com alguns floreios eletrônicos. Escalado para produzir a estréia da dupla americana MGMT (sigla extraída de ManaGeMenT, denominação inicial da dupla), um outrora projeto de electroclash formado pelos universitários Ben Goldwasser e Andrew Van Wyngarden, sua influência se faz notar desde a faixa de abertura, Time to Pretend. Equilibrando a psicodelia carregada do produtor com beats de bom gosto, o álbum é um belo exemplar de rock moderno, com groove e melodias pegajosas disputando espaço. À melancolia de The Youth se seguem a jornada space disco da excelente Electric Feel e o electro à Ladytron de Kids. Pieces of what começa folk e vai crescendo até se tornar new wave na faixa seguinte (Of Moons, Birds & Monsters). A última música, Future reflections combina à perfeição as origens dançantes da banda à verve noise viajandona de seu atual guru. Apesar de a intervenção de Fridmann ter sido fundamental, fato inegável é a qualidade das composições, o que pressupõe um futuro alentador para a dupla.

Youtube: Time to pretend
Youtube: Electric Feel
Youtube: Kids

domingo, 6 de julho de 2008

Beulah - When your heartstrings break (1999)

A segunda metade da década de 90 foi um período relativamente confuso para a música indie. Ao mesmo tempo em que era observado o ocaso do rock alternativo na sua acepção tradicional, do pós-grunge angustiado das bandas americanas que explodiram na esteira de Nevermind e do boom de Seattle, o britpop entrava em decadência após sua breve glória e a música eletrônica era saudada como o próximo passo. Além disso, o Radiohead lançava o álbum que seria talvez o último grande clássico da década, Ok Computer, em 1997. Paralelamente a isso, um grupo de músicos americanos criava um pequeno, porém interessante projeto, o selo Elephant 6. Liderado por Robert Schneider (The Apples in Stereo) e Jeff Mangum (Olivia Tremor Control), o selo acabou por se tornar praticamente um coletivo, com músicos tocando em múltiplos projetos, com a preocupação única de se manter fiel à sua paixão pelo folk e rock psicodélico clássicos, com claras influências de bandas como Beatles, Beach Boys e Love, em produções de baixo custo e alto teor melódico. O Beulah, apesar de não ter feito parte da fundação do coletivo, passou a integrá-lo, em grande parte devido à afinidade artística incrível que compartilhava com os membros primevos da turma. Após um primeiro álbum um tanto hesitante, mas já com bons momentos (Handsome Western States, de 1997), a banda esmerou e lapidou sem som quase à perfeição na obra seguinte. When your heartstrings break, lançado 2 anos após a estréia, é uma fantástica coleção de melodias doces, embaladas por arranjos elaborados, com metais e sopros ornamentando as belas composições de Miles Kurosky. Como a própria banda comentou à época, o som passou de "lo-fi para mid-fi", uma vez que tratava-se de uma produção barata e praticamente artesanal. Evocando o clima pastoril e ingênuo do melhor pop sessentista, a banda atinge seu ápice em músicas como Sunday under glass e Emma blowgun's last stand, exercita um lado mais bubblegum em Ballad of the lonely argonaut e The aristocratic swells, finalizando com as emoções contidas, ainda que intensas, de Warmer e principalmente da tocante If we can land a man on the moon, surely I can win your heart, que contém a verdadeira profissão de fé abaixo:

Cause all you need is a pretty song..

If you wanna sing
Tell me what you wanna sing
and I'll play..
Yea, I'll play
Speed it up or slow it down
and if you want we'll change the sound
Yea, we'll play..
Yea, we'll play..
Anything that you want
All we want from you
Is a word or two..

and even though
We dont show
We cast our nets like missionaries
If we sell out.. Oh well..
Our only fan will be changing costumes..
And you'll see its much the same
So sing a song
And for applause.. We'll get up, get up


Um daqueles discos capazes de salvar vidas...

Onde baixar: Pasa Musica

Youtube: Emma blowgun's last stand
Youtube: If we can land a man on the moon, surely I can win your heart (live)

Músicas de outros álbuns:
Youtube: Gravity's bringing us down (The Coast is never clear - 2001)
Youtube: Landslide Baby (Yoko - 2003)
Youtube: Gene Autry (The Coast is never clear - 2001)
Youtube: Popular mechanics for lovers(The Coast is never clear - 2001) Obs.: uma das letras mais engenhosamente simples sobre amor que já vi... Popular mechanics for lovers lyrics

Am I cracking up or just getting older?


Pete Townshend cantou essa jogada há muitas décadas... Mas não teve culhão para cumprir sua bravata. Assim como a grande maioria dos músicos e fãs do gênero, com exceção daqueles que partiram acidentalmente (ou não). De qualquer forma, para o ouvinte médio de rock, existem sinais, alguns sutis, outros nem tanto, de que a areia está começando a se acumular na extremidade errada da ampulheta. Vejamos...

1. Fleetwood Mac - Alguém se imagina ouvindo Landslide ou Rhiannon aos 17 anos? Se emocionando ao som de Sara? Desconsiderando aquele visual hippie de butique na parte feminina, caminhoneiro "charmoso" entre os rapazes? E se alguém reclamar, ainda corre o risco de ouvir algo como "ah, mas naquela idade eu não tinha sensibilidade para apreciar melodias tão maduras"...


Youtube: Fleetwood Mac - Sara

2. Bruce Springsteen - Gostar do boss é algo natural... Mesmo sendo jovem. O problema é quando se começa a nutrir um respeito quase sobrenatural, dylanesco até, pelo cidadão. O chefão é bom, muito bom... Mas não é Deus, tampouco Dylan.








Youtube: Bruce Springsteen - The River

3. Rock progressivo - Depois de anos criticando aqueles solos intermináveis de guitarra/bateria/flauta/etc, aquelas letras pseudo-intelectuais, aquelas capas datadas e kitsch da Hypgnosis e do Rodger Dean, aquele esoterismo gratuito, o cidadão se pega ouvindo Pink Floyd... Cita o Syd Barrett pra se justificar. Meses depois, está comprando Songs from the Topographic Oceans e dizendo o quanto a ética punk limitou suas preferências durante tanto tempo.

Youtube:Yes - Starship Trooper

4. MPB - Mutantes são o primeiro sintoma... É psicodelia, Kurt Cobain gostava, Belle & Sebastian e The Bees regravaram A Minha Menina, toca no reclame do McDonalds... Depois, está ouvindo Caetano e Gil, mas só a fase mais tropicalista. Aí, percebe que está gostando daquelas faixas que não tem absolutamente nada de pop ou rock. Bom, você acaba ouvindo Chico no final...







Youtube:Novos Baianos - A Menina Dança


5. Impaciência com hypes - É até possível imaginar a situação. Seu sobrinho, animado com o tio "roqueiro véio", puxa conversa sobre a nova banda que saiu na capa de alguma NME de dezembro de 2015. No papel de tio zeloso, querendo posar de jovem (é claro), você se dispõe a ouvir a tal banda. Acha todas as músicas muito parecidas entre si, mas consola o mancebo: "legal essa banda, mas estão fazendo muito alarde e o som não é muito original, me lembra coisas como Velvet, Television". Até entregar os pontos: "bom mesmo era na minha época, já ouviu Strokes?"...

Youtube:Arctic Monkeys - Mardy Bum (live @ Glastonbury)

Alguns devem estar se perguntando... E Eagles? Bem, envelhecer é uma coisa, perder o senso de ridículo é outra...

sábado, 5 de julho de 2008

Ween - White Pepper (2000)

Usar termos como idiossincrático ou eclético é lugar comum sempre que se tenta falar a respeito do som do Ween. Tendo como núcleo criativo o duo Dean e Gene Ween, a banda surpreende os ouvintes desde GodWeenSatan: The Oneness, estréia lançada no agora longínquo 1990. Rock pesado, progressivo, jazz rock, ritmos exóticos, country, funk, pop simples... Tudo servindo de base para letras ora nonsense, ora corrosivas, às vezes até doces. Parece um tanto indigesto, mas ouvindo Pure Guava (1992), Chocolate and Cheese (1994), The Mollusk (1997) ou Quebec (2003), tudo parece até fazer algum sentido. Mas não é destes discos que se tratam essas mal escritas. White Pepper, de 2000, é considerado um ponto baixo na carreira da banda, talvez por ser o álbum de audição mais fácil de sua carreira. Apesar de conter a mesma miríade de estilos que é marca registrada da banda, tudo soa extremamente fácil e pegajoso, já à primeira audição. Optando por dar alguma beleza ao caos, o Ween caprichou nas melodias, evitou arranjos muito intrincados e pariu uma pérola de seu som amalucado. Power pop, pós-punk, Beach Boys, Beatles e Steely Dan, com alguns interlúdios mais pesados, narrando temas mais palpáveis. Sem nenhum grande destaque individual, o disco é bom e coeso em seu todo. Onde tudo deveria soar desafiador e imprevisível, predomina uma sensação de harmonia que permeia a maioria das faixas. A crítica torceu um pouco o nariz à época, mas hoje trata-se de uma obra que merece revisão. Pode-se argumentar que o mundo precisa mais do velho Ween do que de mais uma banda de pop convencional, especialmente numa época carente de coisas como Mr. Bungle ou discos legais do Primus (um paradoxo para alguns). Mas renegar um trabalho bom como esse apenas por princípios é uma pequena sacanagem.

Youtube: Even if you don't
Youtube: Flutes of Chi (Gene Ween acoustic)
Youtube: Exactly where I'm at (live @ David Letterman)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Back for good

Curioso voltar a escrever após tanto tempo, mas creio que senti falta de expressar minhas linhas tortas e mal escritas para os bravos e raros incautos que por aqui passam. Guess who's back... Não, não é Slim Shady!